domingo, 23 de dezembro de 2007

Voo Solitário


Parti, para uma viagem sobre mim, na direcção do infinito. Segui a direcção do mar, o oceano inundava-me o olhar, as lágrimas fundiam-se nas águas frias, estirei as asas, parti.Neste voo solitário, rodeado de outros, voei, para longe do teu calor, para longe de ti. Precisava sentir a tua ausência, não aquela que já carrego no peito, mas a física. O vento, frio, as nuvens, cinzentas, a noite, escura, foram os companheiros da minha alma, que ao ganhar distância, se sentia desnorteada, vazia, ôca. Perdi o tempo, envolto em memórias de ti, em imagens de nós, a tua voz, foi a melodia que escutei nas asas do vento.Parti, para longe, muito longe, isolei-me no meio deste mar imenso, deixei-me ficar, esperando-te, esperando que desses pela minha falta, e deste!A chuva, disfarçava-me as lágrimas que me percorriam o corpo, o vento, levava para longe os meus prantos, escondia o teu nome em cada rajada. As ondas, impunentes, abafavam o som da música que sempre tocaste para mim. Tremi, não sei se de frio, não sei se de solidão. Ali, de pé, sobre aquela rocha negra. esqueci-me do tempo, qual estátua perdida numa baia qualquer. Um anjo petrificado, esperando por um toque dos teus dedos para renascer para a vida.A tua ausência esmagou a minha alma, o teu silêncio rasgou-se no rebentar do trovão, um raio de luz, electrizante e letal, despedaçou o anjo, atirando ao oceano, cada pedaço, cada pena, deixando a rocha, negra, vazia.Todas as tardes, desde então, uma gaivota vem pousar naquele rochedo. As pessoas que passam, olham-na, solitária, sempre a olhar o horizonte, para lá do mar. Contam os pescadores uma velha lenda, que um dia, uma alma perdida, morreu de amor, numa noite de tormenta, enquanto esperava pela sua outra parte, ali, sobre aquela rocha.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

À Procura do Amor...


De volta ao meu caminho, nesta incessante procura de ti, sigo viagem rumo ao desconhecido. Vou colhendo pedaços de ti, naquele anjo azul, naquele passo mágico, resquícios que me dizem que já estiveste ali, mas que já partiste. Encontro-te em muita gente mas, apenas por um instante, apenas como um truque, um passe de magia, porque, no segundo seguinte já lá não estás.Houve um momento em que acreditei ter chegado antes de ti, ter-te recebido de braços abertos, ter-te dado a minha alma, ter ficado contigo. Este instante, de anos feito, revela-se agora vazio de ti, deixaste-me a tua lembrança, mas a tua alma, voou, para outro abrigo, deixando-me atrás no tempo. Mais uma vez, devo seguir o meu caminho, procurar-te, numa outra forma qualquer, encontrar-te num olhar de emudecer.Dou comigo a pensar, se não seria melhor deixar-me ficar, quieta, esperando que tu me encontres, voluntariamente, sem fugires de mim, neste jogo que nos leva à loucura, numa partida onde apenas os breves momentos de encontro, satisfazem a saciedade de uma saudade prolongada que se arrasta com o próprio tempo. Sobra-me a tua ausência, falta-me a força que me impele a procurar-te de novo. Quiçá num último fôlego, de novo só, sigo pelo estrada infinita, procurando-te, nesta derradeira viagem que um dia me fará acabar numa berma qualquer do caminho, morta pela tristeza de não te encontrar, desfalecida pela angústia de pensar que não queres ser encontrado…

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

e nesse momento, o mundo parou...



Esta saudade que carrega o tempo sobre as costas, faz vergar os corpos, que cedem à ausência do outro.
A proximidade é como um íman, atrai-nos, chama-nos.
O teu corpo gritou ontem pelo meu, num grito em silêncio, que apenas o olhar soltou.
O meu corpo agitou-se, sentiu o teu chamamento, estremeci por dentro na ânsia de que tomasses a iniciativa de te aproximar. Senti-te vir, com a tranquilidade da brisa suave, de mansinho, chegaste o teu corpo ao meu, deixaste que te acariciasse, olhaste-me nos olhos, sentiste o meu calor, colar-se ao teu.
Os meus dedos, gelados pela tua ausência, ganham fulgor ao sentir a tua pele, tornando-se, num ápice, em línguas de fogo que se fundem com a erupção da tua pele. Abraço-te, com a delicadeza duma pluma, sentes as minhas mãos sobre o teu corpo e deixas-me sentir a segurança que sempre encontrei nos teus braços.
Neste momento, a criança perdida, sente-se protegida.
A mulher, que outrora estava só, sente-se completa.
A alma, triste e cinzenta, encheu-se de cor, e juntos, ganhamos asas para voar. Senti o toque dos teus lábios, sobre os meus, senti, o gosto da tua boca sobre a minha, senti, os teus braços envolverem o meu corpo como se me cobrisses com um manto de amor.
Deixei que os meus olhos se fechassem, entreguei os sentimentos à alma que me transportou junto contigo para a eternidade de um momento em que nos completamos, em que matámos a distância, a ausência e a saudade, num beijo lânguido, num abraço apertado, mesclando a fragrância do teu corpo, com a essência da minha alma duma forma mágica, e nesse momento, o mundo parou em nosso redor, por uns instantes, para suspirar.

Tristeza


O amor, flor delicada,

Sensibilidade esperada, desejo alcançado.

O amor, espinho cravado,

Sentidos perdidos, angústia esbanjada.

Perco-me entre as palavras de amor que te escrevo,

Entre os desejos que te confesso,

Entre a dor de te partilhar e a alegria de te desfrutar.

Difícil,

Este sentimento inexplicável,

Em que te tenho sem te ter,

Em que és meu sem o seres.

Perco-me nos pensamentos que invento,

Nas magias que crio, na realidade que não comporto,

E evaporo-me,

Pela volatilidade de ser aquilo,

Que o meu corpo não compreende,

De desejar aquilo que não alcanço.

Silêncio, faço-me dele,

Encho-me de nada para te dizer o que não sinto,

Para te esconder o que não quero revelar.

Invento-me!

Quando se ama com a intensidade de uma tormenta,

Tudo em nós é exageradamente forte.

Dos sentidos às reacções, do tudo ao nada.

Ficar aqui, afogada em mágoas,

Perdida em pensamentos destruidores,

Apago em mim, o que de mais terno sinto por ti,

A loucura sufoca-me e eu deixo-me sucumbir,

Ao momento em que tenho de te oferecer,

Ao momento em que te dás a outras,

Sem nada por fazer, sem nada por conter,

Deixo-me apenas morrer,

Esperando renascer para outro alguém,

Que consiga, simplesmente absorver-me,

Que seja capaz de me compreender.

Hoje,

Acordei com a sensação de que iria ficar profundamente triste,

E fiquei!...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Gotas… pedaços de mim!











Gotas de água,
Lágrimas choradas,
perfume da tua essência.
Um mar de sentidos que transborda do olhar,
Perdido em ausências, encontrado na saudade,
Preenchido de vazio intenso.
Lágrimas salgadas,
De desilusão e de tristeza,
Que salpicam a praia da alma.
Intensas, como as chuvas de Abril,
Suaves como as tempestades de verão,
Igualmente vazias como o coração ausente.
Perfume intenso, envolvente, doce como o mel,
Suave como a brisa de uma manhã de primavera,
Terno, como o toque da seda na pele.
Gotas de suor,
Quando o corpo é levado aos limites,
Quando o amor é elevado à eternidade de um momento a dois.
Gosto salgado da pele,
Quando a boca a devora
Em beijos perdidos,
Na imensidão duma paixão esquecida.
Mar imenso, de sal salpicado,
Que invade a praia da saudade,
Que se revolta contra a dureza da rocha,
Que insiste,
Que persiste em inundar abismos
E afogar a esperança juntamente com a mágoa.
Gotas de água cristalina,
Que mata a sede,
Que lava o espírito,
Que sacia a vida,
Diluindo a distância,
Envolvendo os corpos perdidos de luxúria.
Filtro redentor,
Que enaltece a paz duma alma revolta,
numa tempestade tropical.
Gotas,
Pedaços de um todo,
Pedaços de mim!

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Dispo-te a alma


Dispo-te a alma, com as minhas palavras.
A cada sílaba, a cada frase,
Toco-te, como se fosses real,
Como as mãos que tocam a pele,
Assim os meus sentidos se envolvem nos teus.
Tiro, cada peça que te cobre,
Que te esconde, nesse emaranhado de barreiras,
Que erigiste para te proteger,
Avanço, a cada letra, com a suavidade da seda.
Encontro-te, na profundidade de um ser mágico,
Onde apenas a luz habita.
Quero beber a tua essência perfumada de mel,
Polvilhada de canela.
Quero amar-te,
Mas quero fazê-lo através da alma.
Inebriando-te os sentidos,
Acariciando-te no brilho do teu ser.
Os corpos já dormentes,
Porque os sentidos se fundiram,
Deixam-se envolver,
Toco-te no rosto, suave, tranquilo.
Os meus olhos penetram nos teus,
Os meus braços envolvem-te o corpo,
Dançamos,
Com a suavidade de uma pena em suspensão.
Totalmente,
Para lá do tempo, do espaço,
Voamos sem ter asas,
Passando entre as estrelas.
Cá em baixo,
Sobre o chão coberto de almofadas,
Os corpos devoram-se,
As bocas coladas,
Suspiram ao ritmo da cadência dos movimentos,
Retorcendo-se em espasmos de prazer,
Em momentos de loucura.
Nessa noite, fizemos o dia nascer várias vezes,
Percorremos galáxias distantes,
Dê-mos o corpo e a alma um do outro,
Mesclámos essências e fluidos,
Com magia e sedução,
E ao ritmo do fluir das palavras,
Criámos a eternidade,
Em suaves pinceladas de amor.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Almas Gémeas

No silêncio profundo da noite escura. Perdida do meu corpo, que não me pertence. Entrego-me na busca incessante da tua alma, que se encontra, nas sombras da floresta dos murmúrios que nos fustigam. Uma alma que vagueia sem destino nenhum, apenas procurando por outra que gémea se lhe assemelhe, que de sentimentos cheia, outros tantos sentimentos procura. Desprezamos o que é meramente mortal e oferecemo-nos a eternidade, num mundo, onde o tempo não existe e apenas os sentidos semeiam a luxúria que nem os corpos podiam imaginar existir, sentir ou desejar. Porque, neste espaço fechado onde eu te possuo, apenas existe o meu ser e o teu, ambos unidos pela sede de estar juntos, pela vontade de quebrar as regras que a gravidade impões aos corpos e que enquanto almas não padecemos. Estas emoções, por tanto tempo aprisionadas sobre as grades de vidas diferentes e caminhos mal trilhados, explodem, numa vaga enorme, que se arrasta por todo o oceano. Libertando as suas forças ao chegar à areia da praia, adormecendo sobre ela, como tu adormeces sobre o meu colo que te ampara e protege da tempestade da vida, afagando-te os cabelos e deixando-te dormir como se faz a uma criança. É neste turbilhão de emoções que as nossas almas encontram a paz, que os corpos não podem jamais sentir. É nesta paz, que o amor atinge a eternidade, e que acreditamos que a felicidade existe.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Apenas a brisa me olha...











Escuto cada ruído do meu corpo,
A brisa pinta-me na pele a tua mão e esta,
Desenha os contornos do meu seio…
Ao de leve,
Tão ao de leve, que pensei ter imaginado…
Sinto os teus lábios no meu pescoço
E fecho os olhos, à espera de um beijo
Mais quente, mais apaixonado…
Mas apenas ouço a porta a fechar-se suavemente,
Ficando eu apenas, e a brisa…
Fico desnuda, exposta ao mundo
Já sem segredos, sem sonhos, sem anseios…
Aqueles, que te revelei docemente
Em noites de lua cheia em que me completaste…
Fico parada,
A relembrar esses momentos de loucura total,
Essa doce paixão…
Essa sensação de acordar feliz
E novamente adormecer,
Sossegada e confiante por pensar
Que serias meu para sempre.
Tenho frio, mas não me cubro.
Estou cansada de estar de pé, mas não me sento…
Apenas a brisa escuta agora os ruídos do meu corpo…
Apenas a brisa me olha…
E estranhamente,
Não sinto vergonha de estar assim,
Desnuda para o mundo…

domingo, 25 de novembro de 2007

Desejos...













Vejo-te, a cada instante, como se estivesses aqui.
Abraço-te, e sinto o teu corpo, colado ao meu.
Desenho-te, sobre a tela branca, contornos de um corpo
Que sinto com a ponta dos dedos.

O teu corpo incandescente aquece o meu, gelado,
Derretendo-me os sentidos.
Num instante, a escuridão da noite ganha luz própria
E sinto-te sobre o meu corpo.

Falas-me ao ouvido enquanto eu percorro
Com a palma das minhas mãos a tua pele.
Hoje, nesta noite fria,
O gelo é queimado pelo desejo de nos amarmos.

Os corpos, desejam-se e as almas abraçam-se,
As nossas bocas colam-se em pequenos beijos,
As minhas mãos cravam-se com força sobre as tuas costas,
A tua boca chama-me.

Respondo-lhe com a ondulação suave do meu corpo,
Beijo os teus lábios docemente,
Devoro a tua língua, que se adentra em mim,
Oferecendo-me segredos nunca revelados.

sábado, 24 de novembro de 2007

Consigo Tocar-te a Alma Com Um Sopro.










Na penumbra do silêncio, sinto-te chegar com o perfume do incenso que arde, com a suavidade do fumo que se desprende da combustão. A música mescla-se com a essência do perfume, e o meu corpo envolve-se no teu, como se fossemos apenas um só. Há uma eternidade que não te via, há um instante que te desejava, e, agora, estás aqui. Envolto nesta cortina de fumos e cheiros, vejo-te, transparente, como sempre foste a meus olhos, como cristal, como água que brota do nada e me banha todo o corpo, num toque suave, tranquilo, como se sempre tivesses estado aqui, como se nunca me tivesses deixado à tua espera.
Nesta eternidade, feita apenas de um momento, a seda cobre-me o corpo, que é o teu também, a saudade abraça-me a alma, e o teu corpo sacia-me os desejos. Há séculos que não te sentia chegar, quase não sabia como eras, e estás aqui, mesmo a um milímetro de mim, sinto o calor do teu corpo, e consigo tocar-te a alma com um sopro. Ao ritmo da música que fazemos tocar, os corpos ondulam sobre o espaço vazio, sem se tocarem, numa dança sensual e suave, prolongando a ânsia de se terem por apenas este momento de eternidade.
Este instante, em que rasgamos o tempo, as barreiras e os compromissos, atravessamos dimensões, quebramos as regras estabelecidas, para matar a saudade que perdura, por toda a eternidade, fazendo deste lugar, o momento em que tivemos a coragem de nos entregar a nós próprios, entre um segundo e o próximo, entre a realidade e a ficção, entre o permitido e o por demais proibido, só, para nos consolarmos, só, para nos desafogarmos, só, para nos termos, nem que fosse, entre um segundo, e o próximo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Encontro-me Muda











Estou completamente,
Desesperadamente,
Irredutivelmente,
Totalmente,
Irritadamente,
Sem palavras…
Encontro-me muda!
Porquê?
Porque há momentos em que as palavras não chegam.
Há alturas para as quais,
As palavras não bastam.
Entristeço-me...
e tudo porque nada mais tenho para te oferecer.
Restam-me as palavras...
Palavras que não tenho agora.
Palavras que te toquem,
Como eu, não posso tocar-te.
Letras que tu vejas,
Como eu, não posso ver-te.
Frases que te amem
Como eu, não posso amar-te.

domingo, 11 de novembro de 2007

Hoje despi-me...













Hoje despi-me
Mordi a maçã
Vesti-me de serpente
Envolvi-te no meu Eu
Fundi a minha pele com a tua
O meu cheiro com o teu
Sorvi os teus lábios
Senti a tua pele quente....
Hoje despi-me
Transformei-me numa gota
Rolei pelo teu corpo
Transformei-me num rio
Cai no teu mar
Formei ondas, tempestades
Naveguei em ti
Ao sabor dos ventos
Hoje despi-me
Transformei-me num olhar
Quente, doce,
Lânguido e ansioso...
Hoje despi-me só para ti....

Detalhes


Mesmo que quisesse, não poderia enumerar, todos os momentos que penso em ti durante o dia.

São, como pequenos lampejos, que involuntariamente me afloram à mente, e me mostram o teu corpo, como que recortado em pequenos quadros. É assim que te vejo, detalhe por detalhe.
São imagens que me ofuscam a vista, como se fossem contracções musculares, são imagens que teimam em não me deixar um segundo sequer.
Definitivamente, fazes parte de mim.
E quanto mais, mentalmente te vejo, mais te admiro. E não te admiro como o que és, mas sim, pelo que representas em todos os sentidos. Até mesmo, nos momentos em que despercebidamente te observo, me perco em detalhes tão pequenos, mas ao mesmo tempo, tão admiravelmente interessantes, que só após algumas tentativas, consigo desprender o olhar de ti. E quando me chega a tua voz, chega, como se estivesse a alguns anos luz de distância. Sem te escutar, observo o movimento dos teus lábios que me parecem mais, com pequenas borboletas, que dançam suavemente diante de meus olhos.
A cada dia, a cada hora, a cada minuto e a cada segundo, lamento que tudo tenha sido tão fugaz!
Mesmo que quisesse, não poderia enumerar todos os momentos em que não penso em ti....são tão poucos, que quando penso neles, não os percebo, apenas te vejo, detalhe por detalhe...

Tu & Eu





Tu,
A devorares-me com esse olhar…

Eu,
Tremendo de antecipação.

Aproximas-te…

Vais-me enleando
Nessa teia de sedução…

Fecho os olhos
E o mundo pára.

Sinto o teu cheiro…

O teu toque é um rastilho
Que nos leva ao frenesim…


Tu e eu
Os corpos ardentes, febris.

Intumescentes…

Amando-se
No encontro de reentrâncias…

Libertando mistérios,
Soltando suspiros.

E gozando…

domingo, 4 de novembro de 2007

Onde Quase Ninguém Alcança...


Existe aqui, dentro deste espaço, algo sem nome. Os teus olhos parecem alcançar além. Da tua pele pálida, uma luz, um tom de vermelho suave, umas manchas feitas de sardas que ornamentam o rosto de um modo invulgar. No sorriso, tão largo, tão grande e elástico, as palavras... contendo-se: a adquirirem silêncios para se manifestarem com sensatez; a tornearem, com acato, com cautela, as próprias palavras.
Dentro desse azul eléctrico, nesses olhos redondos que procuram observar cada pormenor e reconhecer em outros, a magia e a verdade. Neles, transparecem o branco, o brilho da luz do dia, a ansiedade engrandecida com quanta determinação.
E, sob as sobrancelhas cerradas, incertas, a inocência. É a inocência confluída com a sensualidade, diante doutros, diante do vazio, diante do que parece tão limitado ou infinito. O infinito, além, aqui, inerte, absorto, ávido, deixando-se alcançar num momento fugaz. Na pele pálida do rosto, de onde se alastra o branco que percorre o pescoço e que decorre sobre os ombros e os braços, a suavidade, o aroma adocicado. Puro. O silêncio é puro. O riso é puro. A gargalhada é pura. Os sentimentos, resvalando como se fossem troncos vivos e robustos, cravam-se na terra, no toque da pele de outros corpos, nas expressões singulares que o rosto vai encontrando naquele ou noutro. São as emoções, as recordações, os sorrisos, as lutas desordeiras, a ecoarem os gritos de força e de coragem. É o cheiro a terra batida debaixo dos pés e o tacto das mãos nas próprias mãos, as palavras oscilando entre a ternura e a dureza, o coração a ser abrupto nessa forma emotiva de sentir. Debaixo da luz do céu, o amor a querer crescer, o amor a querer vencer, o amor a querer contrariar tudo o que o impede de se expandir. É debaixo das horas e dos segundos, quando tudo se silencia, que o intocável faz sentido. É sob os silêncios e sob os sorrisos carregados de genuinidade, que um sentimento se transforma, até que seja, apenas selvagem: genuíno e violento. Debaixo, pois, onde quase ninguém alcança... está o AMOR.

Neste Banco de Jardim


É neste banco de jardim
Onde me sento
Que te lembro e que me esqueço
É aqui que o meu pensamento
Voa até ti
Nesta saudade
Que não tem fim…
Nesta dor de te ter perdido!
Foste-te, sem te despedires
Não mais verei o teu rosto,
Não mais, nos teus braços,
Me irei aconchegar.
Os teus lábios,
Já não têm calor para me dar.
Deixaste-me…
E agora meu Amor,
Que vou eu fazer sem ti?
Vivo à míngua da tua lembrança…
Vivo?
Não, não creio que esteja viva
Eu já estou morta!...
Neste banco de jardim.

domingo, 28 de outubro de 2007

Doce o Teu Olhar









Aguardo que tu chegues.
Ansiosa, mas feliz,
O meu coração canta e rejubila.
Tanta coisa para te dizer…
Dizer que sou tua,
Que é a ti que amo.
O meu pensamento vagueia…
Memórias de nós dois
Pedaços de ti e de mim.
Sentires que nos acolheram.
Momentos que ficaram.

É Outono, e as folhas caem…

Olho à minha volta,
Onde estás que não vens?
Começo a ficar inquieta.

Como as folhas,
Que se desprendem das árvores,
Também a felicidade,
Se vai desprendendo de mim.

Anoitece…

Oiço o chilrear frenético dos pardais
Que procuram o seu ninho
Tal como eu, te procuro a ti.

Ao longe uma silhueta que se aproxima.

Serás tu?!
Sim, és tu!
Estás agora à minha frente,
Olhamo-nos...
E eu vejo,
Escorrendo languidamente dos teus olhos
Um luar de prata flamejante
Um lampejo de paz e de infinito…

Doce o teu olhar,
Perante ele, renasço
E perco-me
E todas as palavras, ficam por dizer...

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Quero Que Venhas













Quero que venhas
E me tomes
Sem aviso
Vem,
Bebe docemente
Em meu corpo
O néctar da paixão
Que chegando
De improviso
Traz à flor de nós
Este poema
Em tom urgente…

A Cama Vazia













Hoje, ao despertar,
Julguei ter-te a meu lado
Mas, a cama estava vazia.
Vazia...
Como eu também me sentia.
Abri a janela,
O Sol despontava no horizonte,
Abraçando e aquecendo a Natureza
E eu ali, Só.
Lágrimas de tristeza rolaram
É tudo inútil…
O amor que sinto por ti,
Não te traz para mim.
O meu coração bate,
O meu coração GRITA,
Amor, Amor, Amor…
Tanto amor…
Por ti, só por ti, meu amor
Mas hoje entendi,
Que este meu grito,
Não chega a ti.
Não basta eu querer
Para que os nossos corações sejam um
Para isso, meu amor,
Temos os dois que querer!...

A Dança Do Amor









Minha mente é só desejo:
Minha boca clama pelo teu beijo,
Meu corpo pulsa pelo teu toque,
Meu ser estremece pelo teu olhar.
Eu sou,
Inteiramente,
Lua,
Nua,
Tua.
Desejo acima de desejo
Corpo sustentando corpo
Alma comportando alma.
Tu
Infinitamente
No meu
íntimo...
Nós dois
Inebriantes
Na dança do amor
A tocar
A sentir
A gozar
Na explosão do depois...

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O Que Eu Sou













Na imensidão do que eu sou, e do que tu és,
Há sempre um mistério por descobrir.
Na imensidão do que nós somos,
Existe o imenso e o nada.
Na imensidão do teu corpo
Encontro a tua alma.
Na imensidão do mundo,
Encontro-me ou fujo de mim.
Perco-me por caminhos
Que se cruzam neste abismo,
Que são os meus pensamentos...
Perco-me no egoísmo do que eu sou,
Ao perder o meu tempo a decifrar os meus medos.
Esqueço-me do tempo infinito que nos circunda
E nos leva sem darmos por isso.
Esqueço-me do tudo e do nada
E de coisa nenhuma.
E lembro-me que sinto,
Sem saber sentir,
Que falo,
Sem saber falar,
Que escrevo,
Sem saber escrever...
E lembro-me mais e mais de mim,
Para me poder lembrar do todo
Que acredito existir.
Mas, eu sou do mundo,
E tenho na frente do meu rosto,
Uma janela imaginária com formas ondulantes,
Como os quadros de Dali.
Todos os dias agarro no pincel,
E como se fosse possível,
Transformo as formas ondulantes,
Em cubismos de Picasso.
Vivo da arte,
Das palavras que leio nos livros,
Das pessoas que conheco nas ruas,
Não sou nada meu,
Sou tudo dos outros
E do que eles me transmitem.
Vivo de paredes claras e escuras,
Vivo de noites e de dias,
Vivo de ti e do teu corpo.
Não me encontro a mim, mas em mim,
Encontro o mundo, o teu, o meu
E o de todos nós...

No Teu Olhar











Guardas no teu olhar
Um tempo por acontecer,
O sol e o luar
E as palavras que não sabes dizer.

Guardas no teu olhar
O silencio do entardecer
A fragrância do mar,
E uma folha em branco
Por
escrever...

Vou ficar assim
Sem saber de mim
Perdida em ti
Esperando...
Por um novo amanhecer.


Não me Peças Sorrisos



Por agora
Não me peças sorrisos.
Os meus sorrisos
São tudo o que sofri
E o que chorei!


O meu sorriso
Disfarça um rosto duro
De quem constrói a estrada
Por onde há-de caminhar,
Pedra após pedra
Em terreno difícil...
Onde me descobri na vida!
As selvas desbravadas
Escondem os caminhos
Por onde hei-de passar!
Mas hei-de encontra-los
E segui-los
Seja qual for o preço!...
Então
Num novo catálogo
Mostrar-te-ei o meu rosto
Coroado de ramos de palmeira
E terei para ti
Os sorrisos que me pedes!

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Sussurros

Gemidos
Sussurros

Lábios, pele, beijos
Ainda procuro
Como descrever o que vejo?
O que sinto ao te ver

Nunca quis pertencer-te
Tão livre, e eu nem sabia
Tudo que poderia
Encontrar
Experimentar
Em mim mesma
Minha nudez
Meu prazer
Eu queira ser
Tua, talvez, eu nem sei
O que senti
Ao ver-te me olhando
E eu gozando,

Vem, quero o teu beijo, o teu corpo
Estou gemendo
Sussurrando
Os meus lábios procuram-te
Eu tento dizer
Que te amo
E que não vou me arrepender

Regresso Ao Silêncio

Nas frágeis vidraças do meu coração
Tomba agora, a chuva, copiosa e fria
E há cascatas de mágoa e de melancolia
Em meu rosto a bailar ao sal da emoção...

Pressinto a tormenta, ao largo da razão
Rugindo desvairada, em dolorosa agonia
E, qual Alma penada, reclamo, vazia
Por alguém que me veja e estenda a mão!

Na noite disforme, ninguém... Apenas breu!
Sombras dantescas tão nuas e sós, como eu
Remoinhos de folhas que dançam ao vento...

No inferno do temporal que m' assola o olhar
Dissolvo-me em nada, como a espuma no mar
E regresso ao silêncio do meu pensamento!

Palavras Apenas

Escrever... significa apenas o libertar da alma,

Aquilo que o coração tem medo de sentir.
É como uma fuga de pensamentos profundos,
Que escapa por entre a tinta de uma caneta vulgar.
É uma maneira mágica de chegar à intimidade dos seres,
É estar em harmonia com a natureza e com a fantasia que a envolve.
As palavras, têm a capacidade de nos fazer reflectir sobre as nossas próprias ideias,Elas constituem um permanente desafio, àquilo que julgamos pensar...
No momento em que escrevo, a minha inspiração vai viajando...
E quando, finalmente solto o inconsciente,
Dou comigo a projectar desejos,
Sentimentos e emoções que deixo passar como um desabafo...
Tudo é tão fácil de adivinhar,
Quando as palavras são a única forma de comunicar...!

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Filho



É no castanho risonho dos teus olhos que se escrevem a cada instante as linhas do meu presente…

É na firmeza das tuas mãos que germina a flor da esperança que deposito na humanidade…

É lambuzada no mel dos teus beijos que o meu dia se espreguiça e se esgueira alegremente dos braços da lua…

É no horizonte rasgado do teu sorriso que o sol nasce todos os dias no meu olhar…

É à garupa do teu forte carácter que galopam todos os meus sonhos…

E no menear ainda um pouco inseguro das tuas asas que eu sacudo o pó acumulado sobre os meus dias…

É no aconchegar-te que eu tomo o pulso à vida que lateja em nós…

E no calor dos teus abraços que eu me sinto bela e feliz…

É na doçura da tua voz (quando dizes “gosto muito de ti mãe”) que eu me sagro vencedora, em cada dia…

Tu és o mais belo botão de rosa que perfuma o meu jardim…

É do maior amor do mundo que se faz tudo o que sinto a explodir dentro mim…

Filho…TU és o melhor presente que a vida algum dia me podia dar!

AMO-TE!

domingo, 30 de setembro de 2007

Os Amigos


Os Amigos fazem parte dos nossos alicerces emocionais:

São ganhos que a passagem do tempo nos concede.

Falo daqueles (as), a quem podemos telefonar, não importando onde estejam, nem que horas sejam e dizer: "estou mal, preciso de ti”.

Às vezes nem é preciso dizer nada. Ele, ou ela, virá ter connosco de carro, de avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente… ficando ao telefone, o tempo necessário para que nos recuperemos, reencontremos, aprumemos, ou seja lá o que for.

Falo daquelas amizades para as quais, somos apenas nós, pessoas com manias e brincadeiras, eventuais tristezas, erros e acertos.

A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele, mas sem o ónus do ciúme – o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. Ser amigo, é rirmos juntos, é dar o ombro para chorar, é poder criticar (com carinho), é podermos apresentar o namorado ou a namorada. É podermos aparecer de chinelos, de roupão, é até, poder zangarmo-nos e voltarmos um minuto depois, sem termos que dar explicação.
Amigo, é aquele a quem recorremos quando estamos angustiados, e que chega para nos confortar e nos chama, linda, querida, mesmo que nos estejamos a sentir um trapo.

Ter amigos e amigas, é um bem maior e ninguém pode ser feliz, sem eles.

“Há a história de uma senhora, que se vangloriava de não precisar de amigos: "Tenho o meu marido, os meus filhos e isso chega-me". Mas um dia, o marido morreu, os filhos, cresceram, seguiram a sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis, injuriada, como se o destino, lhe tivesse pregado uma partida.

Esqueceu-se que os amigos, não nascem do nada como frutos do acaso: são cultivados, sem esforço, sem adubos especiais, sem método, nem aflição, mas crescendo, como crescem as árvores e as crianças quando não lhes falta a luz, o espaço, o afecto.
Nesta página, hoje e sem uma razão em especial, quero homenagear esses seres especiais, que estão connosco e vão continuar a estar, seja como for, para o que der e vier, mesmo quando estejamos cansados, burros, irritados ou desanimados.

É isso o bom da amizade, não precisamos sacrificar-nos, fazer malabarismos sexuais, inventar desculpas, esconder rugas ou tristezas. Podemos simplesmente, ser nós próprios. Que alívio isso, quando vivemos, num mundo complicado e desanimador, deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo. Pois é, o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezes irritante; pode até se afastar, mas sabemos que volta; ele aguenta-nos e acalma-nos, dá-nos impulso e abrigo, e faz de nós, seres melhores: como um verdadeiro amor.

Momentos


Há momentos na vida, em que temos que abrir mão de tudo o que fazia sentido. Das nossas verdades e do que reputávamos como sendo os nossos valores. Constatamos que eles se tornaram inúteis ao nosso crescimento, já fazem parte do passado e a vida, não se detém olhando para trás, antes, caminha para a frente, em busca de novos acontecimentos. Há momentos na vida, que todas as vigas mestras que asseguravam a nossa sustentação vêm abaixo e a casa cai, independente da nossa tácita recusa ou inaceitação. Há momentos na vida, que ficamos sem saber para onde ir, que nada consegue nos alegrar, motivar ou seduzir e, em compasso de espera, vamos assistindo à fragmentação das nossas estruturas, agora transformadas em quimeras. Nestes momentos ( que têm o peso de uma eternidade), nada nem ninguém pode fazer nada por nós ... estamos definitivamente vazios e sós, porque até a Natureza se cala e Deus perde a fala, indiferente ao nosso torpor. No meio da dor, esmiuçamos o que sobrou de nós, remexemos entre os escombros e descobrimos que algo ainda não morreu. Tênue e frágil, lá está uma pequena centelha de esperança, aguardando uma viragem do destino, que certamente nos surpreenderá com novas alegrias ... e com tantos outros desatinos. Momentos ...

Introspecção


Uma e outra vez, cumpro-me na sentença maldita.
Karma acumulado de muitas vidas por consumar? Quem sabe? …
Estiolo por dentro, cativa deste secular torpor, aos rés de mim, do que sei, do que sempre me foi permitido saber. E as interrogações surgem, em cascatas. Miríades de interrogações inquietantes, cruéis, fundamentalistas…
De que me vale, hoje, a intuição apurada e a sapiência das velhas e profundas cicatrizes que ainda guardo na memória, se carrego na alma, como extenso novelo emaranhado, o espectro abortivo da minha eterna contradição?
Repito o erro, uma e outra vez. Sempre, num crescendo aflitivo e dramático de intensidade. A dor, da vez primordial é, agora, uma pequena e risível gota no enorme oceano que, entretanto, se formou a partir das gotas cada vez mais vastas de todas as dores que, invariavelmente, se foram acoplando.
Contrario o coração. Finto a essência com o acessório, deixando de lado o essencial que só com os olhos bem despertos da alma consigo sentir…
Razões, sem nexo para um desarrozado completo de razões invocadas! A matemática não falha, diz-se! A lógica do ilógico, revela-se sempre inteira e exacta, na exacta medida do que vamos, maciça e destrutivamente, em nós, construindo. Perde-se a noção do tempo e do espaço, como se caminhar fosse apenas um fim e não um meio para chegar a qualquer lugar. E assim se vai delineando um percurso de trevas, complacentemente, ao sabor de ventos e marés, num jogo de quase perfeito encaixe, colhendo, pelo caminho, os frutos podres e bichosos – os frutos possíveis – que ninguém aproveitou e desejando, sempre, os outros, os maduros, perfumados e sumarentos, prémio merecido de quem muito se esforçou para os obter.
Contrario vontades, desejos, até, pulsões vitais! Tudo, em prol da inconsistente ausência de conflito. Sem querer, devo ter herdado a compaixão e o gene mártir de Madre Teresa de Calcutá! O gene do desprendimento, do amor pelo próximo mais do que por mim própria. A capacidade de me auto punir e flagelar sentimentos, em proveito dos sentimentos alheios…
Pergunto-me friamente sobre a origem desta abnegada benevolência… E como quase sempre, entro em completa contradição: Bondade infinita, altruísmo? Ou, enferma alienação e indulgente covardia?
Não suporto batalhas campais. Duelos de titãs. A competição nua e crua, desenfreada. O ganhar ou perder. O perder, quase sempre, mesmo quando se ganhou…
Revolvo-me por dentro, dada novamente ao castigo, como alma secularmente supliciada, vagamente a planar sobre a desdenhosa mas ineficaz placidez da minha própria indignação, em círculos perfeitos de viciosa desdita.
Baixo os braços frouxos, num gesto pesado de desgosto consentido, de contrafeita submissão e arrasto a cortina sombria do olhar sobre o meu muro branco de amplas e intransponíveis lamentações.
Porquê?
Porque deixo que desfile continuamente, ante a aflitiva descrença do meu olhar atento que tanto almeja, a precariedade sórdida e desgastante de um carácter que tinha tudo para ser forte e fecundo?
Porquê, esta incoerência abissal entre o pensamento rápido, lógico, incisivo e impulsionador e a conduta, amorfa, ilógica, medrosa e displicente?
Porquê este arrastamento, em agonia, sem fim à vista?
Porquê, esta permanente e perpetuada trégua com a pequenez balofa da existência? …
Porquê, se a vida não se faz sozinha, nem se dá, assim, em bandeja de prata para que uns e outros, nela, vão servindo, bastamente, a sua gula e outros apetites surreais? Porque teço, então, dia após dia, uma ilusão prenhe que à noite não me canso de fazer desfiar?
Porque insisto num destino de Penélope, se tenho ao meu alcance o fulgor mágico e protector das estrelas que abrilhantam todo o firmamento?
Porquê?
Porque bebo, das horas sem fim, o veneno letal e apago do trilho percorrido, na ânsia de nunca chegar a porto algum, o rasto balsâmico de flores e de mel dos dias serenos e felizes em que apenas bastava respirar, a verdade, a plenos pulmões?
Porquê?
O ar, sofregamente inalado, misto de crença cega e de insensata inoperância, rebentou-me as narinas, trouxe-me de volta o odor adocicado e nauseabundo do sangue quente e o ardor incisivo e doloroso das chagas abertas.
E agora, tantas marés e luas volvidas, a dor continua, em surdina, a alastrar, sem dó nem piedade. Toma-me o corpo e o espírito. Tolhe-me os movimentos. Paralisa-me o cérebro. Confina-me ao espectro a que me deixei reduzir.
Pouco há, já, talvez, que possa ser feito…
Sangro toda a minha fatídica existência, confinada a redomas de cristal reluzente. Esvaio-me no meu próprio sangue, vertido, entre as imaculadas paredes deste tétrico faz-de-conta. Sofro as dores imensas e intensas de não ter aprendido a viver para além delas...
Confundo-me! Não sei se o que, ainda, me mantém o brilho, é meu, se do vítreo cárcere que me tem servido de casulo… Desconheço se o que vivo é real, se apenas forjado para ludibriar o desespero de ver passar os dias, os meses e os anos, inalteravelmente, iguais.
Não sei quem sou, por que espero, para onde me conduzem as incertezas e o trilho hesitante e vago das minhas peugadas…
Rendida, diante de inegáveis evidências, sei, apenas, que entre o brilho do espelho que me reflecte com fulgor e a minha fosca e macilenta realidade, há uma triste e cada vez mais pungente coincidência…

(Tender)

Falar de Amor


Falar de amor é falar de tudo, é falar de nada…
É beber, das emoções, os mais ínfimos detalhes.
É distinguir, na lucidez, os esboços ténues e indefinidos da loucura.
É sentir correr, em nós, a ternura como rio cheio, e deixá-la extravasar.
É o aconchego diário da esperança, como manta de retalhos que se cerze e acrescenta.
É multiplicar sobressaltos, dúvidas e contradições e aprender a geri-los e a viver com elas.
É dividir sonhos, projectos e cumplicidades, tanto como tristezas, dores e amarguras.
É subtrair egoísmo ao individualismo.
É acrescentar verdade e a dose certa de condescendência, de equilíbrio e de bom-senso.
É querer muito bem e confiar.
É não ter medo de entregar o corpo, a alma e o coração.
É ter prazer em dar sem exigir a retribuição directa e proporcional dos afectos dados.
É permitir que o outro nos ame de acordo com as suas capacidades próprias de amar.
É não criar expectativas sobre atitudes e comportamentos do outro
– é perceber que ele(a) já existia como um complexo sistema de vida antes, e que assim há-de persistir durante e depois.
É não guardar ressentimentos quando sentimos que todas as expectativas que não soubemos travar a tempo, foram goradas.
É saber perdoar e pedir perdão.
É perceber e aceitar que cada um tem razões que a própria razão desconhece.
É saber dar o benefício da dúvida.
É gostar do outro exactamente como ele (a) é e não como gostaríamos que fosse.
É conceder asas e, sem medos ou traumas pessoais, incentivar a voar.
É ajudar o outro a escalar o seu próprio Everest.
É permitir-lhe a humanidade de tropeçar e de cair.
É ampará-lo, quando quiser levantar-se.
É não ter a veleidade de julgar que o nosso conselho é o que melhor serve à tomada de decisão do outro.
É aprender a lidar com o desapontamento quando o outro descura o nosso conselho.
É aprender, a aprender, com os nossos próprios erros e com os erros do outro.
É ter a humildade de aceitar que nunca saberemos tudo mas que estamos sempre a tempo de aprender mais.
É ter a inteligência de perceber que não há verdades absolutas.
É permitir, ao outro, a liberdade de caminhar lado a lado, connosco.
É exultar, tanto, com as descobertas que o outro faz, como com as nossas próprias descobertas.
É crescer mais e melhor, a cada novo aprendizado em conjunto.
É saber que se aprende menos enquanto se está sozinho.
É estar desperto para a vida e para a diversidade.
É perceber que ser diferente não é ser melhor nem pior: é apenas uma possibilidade entre muitas a que todos temos direito.
Falar de amor é falar, também, da nossa pequenez face à capacidade de o sentir e de o viver.
É falar dos limites contingenciais impostos pelas nossas emoções.
É falar, daqueles olhos que, sendo apenas bonitos, os nossos olhos vêem belos demais…
E de outros olhos que, não sendo míopes, cegam, por não quererem ver o que os nossos olhos alcançam…
Falar de amor é falar de tudo isto… é falar de nada, é falar de muito mais!

(Tender)

domingo, 22 de julho de 2007

Soltar Amarras


Certa, de ter feito a melhor escolha, jamais estaria mas, fosse como fosse, a grande decisão estava tomada e de caixote em caixote, de memória em memória, sabia que tudo decorreria com normalidade, até chegar ao fim premeditadamente anunciado. Afinal, não fora este, o caminho que traçara, de forma a tornar perfeitamente plausível e irrefutável a ânsia de mudança que desde há muito borbulhava na enorme pasmaceira de que vinha sendo feita, a minha vida? Sair de casa, mudar de rumo! Espraiar-me por outras paragens, mais excitantes, menos previsíveis, onde quiçá, pudesse almejar um amanhecer diferente e sentir-me novamente viva, vibrante e feliz!
Sim, porque ao sair de casa, necessariamente, teria de reequacionar as – grandes e velhas – questões da vida! E esse haveria de ser o meu álibi mais – que – perfeito! Melhor ainda, seria o meu trapézio! O trapézio que me faria voar mais alto e me levaria mais longe, para além do horizonte longínquo, mas certamente possível, das minhas aspirações mais profundas. Pelo menos, assim o pensava e inconscientemente, disso me fui convencendo…
Virar a mesa, para mudar de página, nunca foi o meu forte, por isso durante anos, fui arranjando elaborados pretextos para conviver saudavelmente com o mau estar e o desencanto dos dias e das horas que, dolentemente, iam passando, numa cadência monótona e sempre igual, num terno e quase eterno, “laissez faire, laissez passer”, apenas acalentado pela ingénua esperança de que um dia, por artes mágicas, algo suficientemente forte e poderoso, pudesse fazer despoletar, sob a colorida forma de um arco íris, o mais cinematográfico e espectacular “volt-face” da própria vida, a que algum dia se pudesse assistir.

Por intermináveis meses, mantive-me fiel ao meu propósito, secreta e pacientemente ocupada, a tecer, fio após fio na doce e leve cambraia dos meus desejos, a mais discreta e airosa saída para, mansa e definitivamente, resolver todos os desencontros que, por incapacidade nossa, se foram tristemente amontoando e minando aquela relação, que tantos aplaudiram e apelidaram como a relação mais perfeita e duradoura que conheciam mas que, com o passar dos anos e o desgaste provocado pelas agruras de uma vida entediante, de perfeita apenas mantinha o conforto do nome e das aparências.

Confusa, questionando sobre a razoabilidade da escolha que iria fazer e até da minha própria lucidez e sanidade mental, decidi-me!

Por entre partículas de pó que se iam soltando e pilhas de caixotes espalhados pelo chão da que tinha sido a nossa sala, procurei acomodar recordações próximas e distantes da nossa vida comum – tão plena de boas intenções como de desencontros partilhados no mais absoluto e atroz dos silêncios – interroguei-me, uma e outra vez, sobre o significado de cada sentimento e emoção e sobre o verdadeiro rumo que a minha vida a partir daí, iria tomar…

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Retrospectiva de vida

Há dias, como hoje, em que me vejo a fazer a retrospectiva da minha vida.

Tenho 45 anos, quase meio século, mas olho para mim e não me vejo assim, não sinto o peso dos anos.

Tantos momentos. Tantas recordações. Uma vida preenchida, com muitas alegrias e algumas tristezas, mas sobretudo, bem vivida.

Olho para trás, e vejo-me criança, em Angola. Que bom foi aquele tempo, que grandeza de alma me deu aquele país. Foi um privilégio ter contacto com aquela terra que ficará sempre no meu coração e no meu ideal. África tem feitiço e tem magia! Só quem lá viveu, compreende este laço, umbilical, que nos une a ela...
Depois, foi o corte violento, a separação dolorosa. Tal qual como um bebé que nasce e o separam da mãe, cortando o cordão que até ali os uniu.

Tinha 13 anos e entrava na fase da adolescência. Julgo que a experiência anterior me fez crescer rapidamente, não tive tempo de sentir a tão falada "crise da adolescência", sabia que de um momento para outro, tudo se alterava e assim, procurei tirar partido, do que naquela altura me era oferecido, sem medos e sem crises. Tudo era novidade para mim, o país, o clima, as pessoas. A adaptação foi fácil, e uma nova aventura começou!

Vivi uma adolescência livre e descomplexada, nisso tive a ajuda preciosa dos meus pais, que mais do que pais, foram uns amigos. Sempre acreditaram e confiaram em mim, deixando-me viver sem restrições. Isso ensinou-me a ser responsável e a saber, que quando alguém confia em nós, temos de nos esforçar para a não defraudar.

Casei aos 19 anos, na perspectiva de hoje em dia, muito cedo, mas foi uma decisão pensada e desejada. Como desejado foi e muito, o bebé que dessa união nasceu, quando eu tinha 23 anos.
De novo, a minha vida deu uma reviravolta de 360º.

O sentimento de ser mãe é único, e impossível coloca-lo em palavras. Ele é um sentimento que cresce nas nossas entranhas, durante nove meses, junto com o feto e que explode, em autêntica apoteose, ao fim desse tempo. Indescritível!

Estive 17 anos casada, e desse período, guardo boas recordações. Foram anos que me trouxeram muita felicidade e que me proporcionaram a melhor experiência da minha vida, ser mãe. Terminou, é certo, mas não me deixou mágoa. Tudo na vida tem um fim, só temos é de saber aceitar quando ele chega, e procurar guardar na memória, o que de melhor existiu. E foram tantas coisas boas, tantos momentos inesquecíveis!

Mais uma vez, comecei uma nova fase da minha vida. Ela tem sido recheada de mudanças e que bom têm sido para mim. Se essas mudanças, não tivessem ocorrido, a minha vida continuaria sempre em linha recta, eu não teria tido a oportunidade de viver as sensações que vivi, nem de conhecer as pessoas que conheci. A minha vida tem sido feita de algumas lágrimas, mas muito mais de SORRISOS e isso faz de mim, uma pessoa FELIZ…

domingo, 15 de julho de 2007

Sedução


Alongo-me sobre ti. Demoradamente. Nos olhos, fulgurante e diabólico, o brilho da sedução por cumprir. Nos lábios rubros, entreabertos, mirabolantes promessas de beijos quentes. Os cabelos molhados, naturalmente desalinhados em premeditada liberdade, a açoitarem como voluptuosas ondas o teu peito nu a descoberto do meu prazer, a aninharem-te inteiro, em serenos sobressaltos…
Tu, a semicerrares os olhos num gozo, ainda, por consentir, a suspenderes a respiração quando, no fio da navalha, sinto que queres e foges de querer, a tensão que já se adivinha no ar.
Eu, indecentemente, a passear-me por ti, de alto a baixo, a confundir-me contigo, a deixar o rasto subtil do meu perfume tatuado na tua pele, a enroscar-me, a desenroscar-me, a colar-me com denunciado desvelo, a pôr achas na tua imensa fogueira, a atiçar-te o frenesim e a cobiça que só a custo dominas, a induzir delicias com o breve e quase inocente afago, do meu corpo a serpentear no teu.
A pele nua a roçar o gostoso desconforto do teu arrepio febril… E os meus seios, como dois frutos, estonteantemente, maduros a clamar pela avidez da tua fome, cada vez mais evidente…
A urgência plasmada nas tuas mãos, crispadas, a amassar raivosamente os lençóis por onde, voluptuosa, a loucura evolui em aflitivo crescendo…
Tu, tenso, em agonia, a quereres e a não quereres jogar mais – pró diabo, o jogo da sedução!
Tu, a um passo de cederes ao teu instinto de macho e me submeteres ao delírio caprichoso da tua vontade…
Não. Não quero que me toques!
Súbita e deliberadamente, afasto o meu corpo do teu, erguendo mais uma barreira ao teu suplício – quebro a estreiteza da tua proximidade, impondo os limites invisíveis de uma distância tácita mas segura.
Quero que me vejas e sintas todas as minhas pulsões mas não quero que me toques. Não, ainda! …
Sentada sobre as tuas pernas estendidas, de frente para ti, seguro tenazmente a força selvagem do teu desejo. Enleio-te as mãos nas minhas. Arrasto demoradamente o olhar hipnótico sobre o teu… Primeiro quero sentir a veemência com que me queres!
Deslizo, depois, lentamente o olhar sobre a tua boca. Detenho-me no perfeito delineado dos teus lábios. Esboço um sorriso ténue, prenúncio de atrevimento… Apetece-me a tremura desses lábios na maciez dos meus! Mordo o meu próprio desejo no desejo intenso de quebrar todas as regras…
E de repente, vejo-me enredada na minha própria teia, deixo de pensar – pró diabo, o jogo da sedução!...
Afinal, para cada regra existe, sempre, uma excepção!