domingo, 30 de setembro de 2007

Introspecção


Uma e outra vez, cumpro-me na sentença maldita.
Karma acumulado de muitas vidas por consumar? Quem sabe? …
Estiolo por dentro, cativa deste secular torpor, aos rés de mim, do que sei, do que sempre me foi permitido saber. E as interrogações surgem, em cascatas. Miríades de interrogações inquietantes, cruéis, fundamentalistas…
De que me vale, hoje, a intuição apurada e a sapiência das velhas e profundas cicatrizes que ainda guardo na memória, se carrego na alma, como extenso novelo emaranhado, o espectro abortivo da minha eterna contradição?
Repito o erro, uma e outra vez. Sempre, num crescendo aflitivo e dramático de intensidade. A dor, da vez primordial é, agora, uma pequena e risível gota no enorme oceano que, entretanto, se formou a partir das gotas cada vez mais vastas de todas as dores que, invariavelmente, se foram acoplando.
Contrario o coração. Finto a essência com o acessório, deixando de lado o essencial que só com os olhos bem despertos da alma consigo sentir…
Razões, sem nexo para um desarrozado completo de razões invocadas! A matemática não falha, diz-se! A lógica do ilógico, revela-se sempre inteira e exacta, na exacta medida do que vamos, maciça e destrutivamente, em nós, construindo. Perde-se a noção do tempo e do espaço, como se caminhar fosse apenas um fim e não um meio para chegar a qualquer lugar. E assim se vai delineando um percurso de trevas, complacentemente, ao sabor de ventos e marés, num jogo de quase perfeito encaixe, colhendo, pelo caminho, os frutos podres e bichosos – os frutos possíveis – que ninguém aproveitou e desejando, sempre, os outros, os maduros, perfumados e sumarentos, prémio merecido de quem muito se esforçou para os obter.
Contrario vontades, desejos, até, pulsões vitais! Tudo, em prol da inconsistente ausência de conflito. Sem querer, devo ter herdado a compaixão e o gene mártir de Madre Teresa de Calcutá! O gene do desprendimento, do amor pelo próximo mais do que por mim própria. A capacidade de me auto punir e flagelar sentimentos, em proveito dos sentimentos alheios…
Pergunto-me friamente sobre a origem desta abnegada benevolência… E como quase sempre, entro em completa contradição: Bondade infinita, altruísmo? Ou, enferma alienação e indulgente covardia?
Não suporto batalhas campais. Duelos de titãs. A competição nua e crua, desenfreada. O ganhar ou perder. O perder, quase sempre, mesmo quando se ganhou…
Revolvo-me por dentro, dada novamente ao castigo, como alma secularmente supliciada, vagamente a planar sobre a desdenhosa mas ineficaz placidez da minha própria indignação, em círculos perfeitos de viciosa desdita.
Baixo os braços frouxos, num gesto pesado de desgosto consentido, de contrafeita submissão e arrasto a cortina sombria do olhar sobre o meu muro branco de amplas e intransponíveis lamentações.
Porquê?
Porque deixo que desfile continuamente, ante a aflitiva descrença do meu olhar atento que tanto almeja, a precariedade sórdida e desgastante de um carácter que tinha tudo para ser forte e fecundo?
Porquê, esta incoerência abissal entre o pensamento rápido, lógico, incisivo e impulsionador e a conduta, amorfa, ilógica, medrosa e displicente?
Porquê este arrastamento, em agonia, sem fim à vista?
Porquê, esta permanente e perpetuada trégua com a pequenez balofa da existência? …
Porquê, se a vida não se faz sozinha, nem se dá, assim, em bandeja de prata para que uns e outros, nela, vão servindo, bastamente, a sua gula e outros apetites surreais? Porque teço, então, dia após dia, uma ilusão prenhe que à noite não me canso de fazer desfiar?
Porque insisto num destino de Penélope, se tenho ao meu alcance o fulgor mágico e protector das estrelas que abrilhantam todo o firmamento?
Porquê?
Porque bebo, das horas sem fim, o veneno letal e apago do trilho percorrido, na ânsia de nunca chegar a porto algum, o rasto balsâmico de flores e de mel dos dias serenos e felizes em que apenas bastava respirar, a verdade, a plenos pulmões?
Porquê?
O ar, sofregamente inalado, misto de crença cega e de insensata inoperância, rebentou-me as narinas, trouxe-me de volta o odor adocicado e nauseabundo do sangue quente e o ardor incisivo e doloroso das chagas abertas.
E agora, tantas marés e luas volvidas, a dor continua, em surdina, a alastrar, sem dó nem piedade. Toma-me o corpo e o espírito. Tolhe-me os movimentos. Paralisa-me o cérebro. Confina-me ao espectro a que me deixei reduzir.
Pouco há, já, talvez, que possa ser feito…
Sangro toda a minha fatídica existência, confinada a redomas de cristal reluzente. Esvaio-me no meu próprio sangue, vertido, entre as imaculadas paredes deste tétrico faz-de-conta. Sofro as dores imensas e intensas de não ter aprendido a viver para além delas...
Confundo-me! Não sei se o que, ainda, me mantém o brilho, é meu, se do vítreo cárcere que me tem servido de casulo… Desconheço se o que vivo é real, se apenas forjado para ludibriar o desespero de ver passar os dias, os meses e os anos, inalteravelmente, iguais.
Não sei quem sou, por que espero, para onde me conduzem as incertezas e o trilho hesitante e vago das minhas peugadas…
Rendida, diante de inegáveis evidências, sei, apenas, que entre o brilho do espelho que me reflecte com fulgor e a minha fosca e macilenta realidade, há uma triste e cada vez mais pungente coincidência…

(Tender)

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