terça-feira, 13 de maio de 2008

No Meu Corpo


No meu corpo
Vivem as marcas de todas as guerras
Chagas de todas as dores
Feridas de todos os amores

No meu corpo
Vivem as cicatrizes de todos os lamentos
Gritos de dor... momentos
São valas de verga, carne viva

Neste corpo, o meu
Lêem-se todas as batalhas
Escritas a ferro
Desenhadas à mão

E tu amor
Quando um dia me desnudares
Lerás toda uma história
Massacre, martírio dormente

E neste corpo que me deram
Vivo aprisionada
Serei sempre alma
Viva noutro lugar

E nestas marcas fundas da vida
Nas veias, carne ferida
Vou continuar
Sentindo tormentos

E quando um dia meu amor
Olhares o meu corpo
Na pele encontrarás desgosto
Na carne, chaga viva

E se mesmo assim me quiseres
Então amor, oferece-me o teu corpo
Para que a minha alma se encontre
E recupere da vida

Tenho marcas de batalhas sem fim
Mas a guerra, essa, será sempre minha

domingo, 11 de maio de 2008

Lágrima que já não cai


Tristeza

Que me invade os sentidos

A solidão é um convite

À morte dos dias


Lágrima que já não cai

Olhar dormente vazio

Nas últimas horas dos dias


Sofrimento

Que já não tenho nem sinto


Tu... ilusão, condeno

Feitiço quebrado

Aurora negra


És meu sangue parado

Morto, vidrado


Vazio

Tudo deixou de ser

De estar, de existir


Resta-me o vazio

Do meu olhar parado

Cálido, num corpo sem vida


Sentir

Qual sentir?

Se já não sinto quem sou

Nem sinto quem és, o que és

Ao que vens


Em mim nada habita

Nada floresce

Geada de pedra cresce

Erva daninha


São meus braços troncos

Estéreis, frios

Onde tudo finda


Fecundo é o mar que lava a alma

Na noite negra do meu baptismo

Rosa-dos-ventos

Perdida seara...

O fogo purifica os corpos

O mar os olhos...


Tristeza

É amar sem ser amado

É nunca ter sabido amar

É estar só e não saber ser gente


Tristeza

É ser tudo e não ter nada

É ver quem passa

Não tendo para onde ir também


Tristeza ... ah tristeza

É ter um sentimento que já não tenho

É saber-se nu sem ter o que vestir

É saber-se amado e não amar


És triste tu

Que só, continuas tua vida

Condenando a minha

Forma estranha de viver


Sábias palavras

Só é triste quem quer ser


Eu invento-me e renasço

Num mergulho profundo

No centro da terra

Pelo mar subo

Ao fim de mim


E quando julgares que é esse o meu fim

Estarei olhando quem passa

Rindo miséria e chorando alegria

Pois eu serei sempre assim.

Mentiras


Mentiras são punhais

Cravados... reais

Na luz do dia… frontais

Na noite…escondidos

Nas sombras fatais


Partiste e como lembrança

Deixaste palavras malditas

Incertezas mortais


No rastro frases vendidas

Gestos...

Olhos mansos nos meus

Suavidade nas mãos

Sorriso... esse sorriso


Nada sei

Nada tenho

Mentiras!


Chamei tantas vezes o teu nome

No amor... na loucura... no calor

Será esse o teu nome?

Chamar-te-ia realmente?


Quem és tu que habitavas os meus sonhos?

Tu que sorridente invadias o meu espaço?

Que no meu corpo ganhaste guarida?

Nada sei de ti


Dizias tanto e tão pouco

Em gestos loucos

Somente o que contavas

Nas meias palavras de ti


Tecias vendavais no meu corpo

E dizias palavras tantas

E que sentido tinham

Na aurora do dia?


As noites foram promessas

Juras... ternuras

Aninhado no meu corpo

Julguei saber-te em mim


Mentiras, mentiras, mentiras

Que arrancaram aos poucos

Pedaços de mim


E subitamente vejo-me assim

Tiraste-me o chão...alteraste o norte

Sem raízes...nem caminhos

Morri aqui


Quem és tu?

Quem sou eu?

Quem fomos nós?

A Minha Dança


Olho-te nos olhos

Ajeito a saia... longa... caída... solta

Dou um passo e paro

Olho-te...


Um pé desenha meio círculo no chão

Uma mão brinca com a saia

A outra na cintura

Olho-te... desafio


Viro-te as costas

Num rodopio

Acalmo a saia

Dou mais um passo e paro


Com as mãos acima da cabeça

Palmas... cada vez mais palmas

Começa o ritmo

Outras palmas se juntam

Corpo que se solta

Primeiro mansamente

Aos poucos

Membro por membro

Espaço no espaço

Tontura

ViravoltaParo!


Olho-te... sorriso... desafio

E a perna faz um círculo

Desenha território

É meu

O espaço… a terra...

Mãos e gestos devassos

Palmas… sempre palmas

Ao som da guitarra

Dos próprios passos


A saia acompanha o deambular das pernas

O corpo contorce-se

Cintura arqueada

Movimento

Som frenético

Olhar hipnótico


Palmas… guitarras

Gestos largos… compassos

Mãos que desenham universos

Gentes que se aproximam

Circulo fechado

Quente


Olho-te... desafio

Viro-te a cara


Cabelos soltos ganham vida

Saia vermelha sobe e desce...rodopia

Palmas... alimento

Cresce... vivo... quente… febril

Ritmo

Calor em movimento

Chamas vivas


Tudo é vermelho

O som...o ambiente

A saia...sangue quente

Fogo...fervilha


Dou-te as costas

Frenesim de passos

Guitarrada

Voltas e reviravoltas

Paro!


Ajeito a saia

Corpo que reluz

Molhado...

Mão na cintura

Por cima do ombro

Olho-te de lado

Desafio

Vens?


Descalça ou de salto

Flamenga ou cigana

Esta será sempre

A minha dança

Hoje, vivo apenas.


Entre a fuga das palavras e a debandada dos sentidos, o corpo, só, entregue a si mesmo, caminha desordenadamente sobre os trilhos da vida. O segredo, envolto na alma, os sonhos, enrolados em seda, carrego comigo as minhas heranças, dentro do peito, e vagueio na deriva dos tempos, não procurando encontrar-me. Os meus dedos, esquecidos das palavras, os meus olhos, fechados, negam-se a ler, a pele, adormecida, já não sente, os ouvidos, surdos, não deixam entrar a música que desperta as palavras. Neste espaço, neste lapso, entre um instante e o próximo, respiro, suavemente, adormecendo o corpo, num sono vazio de sonhos, numa estória sem palavras, numa música em silêncio. Não espero por ninguém, não sonho com nada, não vou a lado nenhum, completo apenas o ciclo da vida, dia, noite, acordar, adormecer, andar, parar. Alimento o corpo, com energias que não saboreio, apenas para o manter funcional, é preciso cumprir o destino, é preciso seguir o caminho, até encontrar o princípio.

Hoje, vivo apenas.

A Poesia de Um Momento!...


Na nudez da pele, carregando o erotismo de um corpo semi-despido, sinto-te chegar bem perto de mim, como o som de um poema, ecoando no espaço vazio. Vens, caminhando lentamente, ao ritmo de um bolero de Ravel, em movimentos de prazer. Eu, aqui sentada sobre a cama, na placidez dum momento, travo o tempo. Estendo-te o meu olhar, como uma passadeira vermelha, que te conduz a mim, nesta caminhada de luxúria, lascívia, que se funde com a ternura e a suavidade dum olhar que carregas em ti. Este prelúdio, em que ambos nos deliciamos com os olhares, prolongando a espera, evaporando o ar que nos rodeia, inflamando cada milímetro da nossa libido, deixando os desejos à solta pelo espaço que medeia entre os corpos. Esta louca, e simultaneamente doce espera, relembra-nos de nos esquecermos do tempo, e eterniza nos olhares que se cruzam, o amor que partilhamos entre as nossas almas. Este poema inacabado, em que nos tornámos, é apenas um rio, que nasce aqui, e enche o oceano inteiro, num fôlego de prazeres, desejos e sonhos, perdidos em nós, bem no fundo das almas, apenas traduzido pelas letras dos textos que te escrevo.