domingo, 30 de setembro de 2007

Falar de Amor


Falar de amor é falar de tudo, é falar de nada…
É beber, das emoções, os mais ínfimos detalhes.
É distinguir, na lucidez, os esboços ténues e indefinidos da loucura.
É sentir correr, em nós, a ternura como rio cheio, e deixá-la extravasar.
É o aconchego diário da esperança, como manta de retalhos que se cerze e acrescenta.
É multiplicar sobressaltos, dúvidas e contradições e aprender a geri-los e a viver com elas.
É dividir sonhos, projectos e cumplicidades, tanto como tristezas, dores e amarguras.
É subtrair egoísmo ao individualismo.
É acrescentar verdade e a dose certa de condescendência, de equilíbrio e de bom-senso.
É querer muito bem e confiar.
É não ter medo de entregar o corpo, a alma e o coração.
É ter prazer em dar sem exigir a retribuição directa e proporcional dos afectos dados.
É permitir que o outro nos ame de acordo com as suas capacidades próprias de amar.
É não criar expectativas sobre atitudes e comportamentos do outro
– é perceber que ele(a) já existia como um complexo sistema de vida antes, e que assim há-de persistir durante e depois.
É não guardar ressentimentos quando sentimos que todas as expectativas que não soubemos travar a tempo, foram goradas.
É saber perdoar e pedir perdão.
É perceber e aceitar que cada um tem razões que a própria razão desconhece.
É saber dar o benefício da dúvida.
É gostar do outro exactamente como ele (a) é e não como gostaríamos que fosse.
É conceder asas e, sem medos ou traumas pessoais, incentivar a voar.
É ajudar o outro a escalar o seu próprio Everest.
É permitir-lhe a humanidade de tropeçar e de cair.
É ampará-lo, quando quiser levantar-se.
É não ter a veleidade de julgar que o nosso conselho é o que melhor serve à tomada de decisão do outro.
É aprender a lidar com o desapontamento quando o outro descura o nosso conselho.
É aprender, a aprender, com os nossos próprios erros e com os erros do outro.
É ter a humildade de aceitar que nunca saberemos tudo mas que estamos sempre a tempo de aprender mais.
É ter a inteligência de perceber que não há verdades absolutas.
É permitir, ao outro, a liberdade de caminhar lado a lado, connosco.
É exultar, tanto, com as descobertas que o outro faz, como com as nossas próprias descobertas.
É crescer mais e melhor, a cada novo aprendizado em conjunto.
É saber que se aprende menos enquanto se está sozinho.
É estar desperto para a vida e para a diversidade.
É perceber que ser diferente não é ser melhor nem pior: é apenas uma possibilidade entre muitas a que todos temos direito.
Falar de amor é falar, também, da nossa pequenez face à capacidade de o sentir e de o viver.
É falar dos limites contingenciais impostos pelas nossas emoções.
É falar, daqueles olhos que, sendo apenas bonitos, os nossos olhos vêem belos demais…
E de outros olhos que, não sendo míopes, cegam, por não quererem ver o que os nossos olhos alcançam…
Falar de amor é falar de tudo isto… é falar de nada, é falar de muito mais!

(Tender)

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