terça-feira, 26 de junho de 2007

NICO




Hoje levantei-me e, como todos dias faço, vou abrir a porta, para as minhas cadelas poderem sair.
Todos os dias, ao abrir a porta, o meu primeiro e certo visitante, é o "Nico" um dos meus queridos gatos. Está sempre lá, à minha espera, e diz-me bom dia (porque ele fala, à sua maneira, mas fala). Adora passar as noites fora de casa, é mesmo um animal noctívago. Dorme todo o dia no sofá, na cama, ou na cadeira do escritório, mas assim que o sol se põe, lá vai ele, para a sua passeata nocturna.
Hoje, ao contrário de todos os outros dias, ele não estava à minha espera!
- " Nico, Nico, chamei!"
Ele, que vinha sempre ao primeiro brado, não apareceu. Percorri todo o espaço exterior da casa, sempre a chamar, mas, sem sucesso, o Nico não veio.
- Pensei... "bem, hoje entreteve-se por mais tempo no seu passeio. Gosta tanto do seu passeio nocturno, que nem se deve ter apercebido que amanheceu."
Esperança vã a minha. Durante todo o dia não regressou. Já é de novo noite e, ele não veio.
- "Nico, onde andas tu meu pequenino?"
Preocupo-me, porque já foi, por duas vezes, atacado pelos cães do meu vizinho. Da primeira vez, ficou muito maltratado, mas felizmente, conseguiu escapar. Na segunda vez, saiu, por sorte, praticamente ileso, mas, continua a não saber defender-se! É tão bonzinho e tão habituado a estar com as suas amigas, a Hera e a Laika, que quando são outros cães, julga que não lhe fazem mal, tal como elas não lhe fazem a ele.
Tenho esperança que ele ainda venha, mas esta esperança, para ser sincera, já não é grande. Nunca passou mais do que, umas poucas horas longe de casa, e esta ausência tão prolongada, não augura nada de bom, não quero nem pensar!...
Se ele desaparecer vai ser para mim muito doloroso, eu amo muito estes meus companheiros e por ele, tenho um carinho, ainda mais especial.
Veio para a minha casa, recém-nascido. Fui eu que o criei a biberão e o ensinei a fazer as suas necessidades. Era tão pequenino, que tinha de ser estimulado. Para certas pessoas, pode até parecer estranho este apego tão grande que pessoas como eu, têm aos seus animais. Mas estas criaturinhas passam a fazer parte da nossa família e do nosso coração.
Se ele não voltar, parte do mim fica de luto, porque a sua falta vai ser muito sentida!
Espero e desejo que voltes, Nico!
P.S. Tenho mantido este pequeno relato em rascunho, faltava-me a coragem de o tornar público. Parecia-me, que ao fazê-lo, era como se do enterro do Nico se tratasse.
Vou fazê-lo hoje, por uma razão que me traz uma grande alegria... o meu pequenino, ao fim de 3 dias, APARECEU!
Chegou com um ar cansado e mais magro, mas sem qualquer ferimento. Não sei por onde andou, se ficou preso em algum lugar, ou se simplesmente se distanciou muito de casa. Pouco importa o que aconteceu, o importante, é que ele voltou para casa e, mesmo estando debilitado, lá veio ele, dar-me os bons dias. É um gato que não mia, emite uns sons, como se estivesse a conversar connosco.
Sê bem vindo, Nico!

domingo, 24 de junho de 2007

Do Caos Ao Cosmos


Por que dificultamos tanto a vida? Como permitimos que a mediocridade avançasse a galope nos últimos tempos? Parece que a humanidade traz em si, latente, uma sordidez que, de tempos em tempos, explode, assim, do nada. Basta uma palavra, um movimento, um sorriso, uma opinião diferente. Não podemos protelar as tentativas de solucionar os problemas surgidos ou ressurgidos. Se a inteligência humana avançou, se a ciência e a tecnologia operaram maravilhas, qual a razão de nos matarmos por questões menores, fúteis, por diversidade de opiniões? Teremos algo mal resolvido na nossa ancestralidade?
A diversidade é uma bênção, não uma maldição. Não há duas pessoas iguais neste mundo; nem somos iguais a vida toda; nada é igual no minuto seguinte ou ao que passou; nada persiste imutável ao longo do tempo. Somos diferentes e essa máxima, deve ser sempre levada em conta: diferentes crenças, raças, gostos, gestos, estilos de vida, talentos, filosofias, cores, sabores, comportamentos, egos, tipos físicos. A convivência entre pessoas e povos depende disso, mesmo porque, estamos todos no mesmo “barco”: caso ele “afunde”, não haverá ninguém para contar a história.
O segredo, é a eliminação da desorientação cultural porque, enquanto o mundo separar o “nós” e o “eles”, enquanto houver exclusão, não teremos paz. Não sou melhor nem pior que nenhum outro dos seis biliões de habitantes da Terra; sou apenas, diferente. E o que abalar uma só dessas partes, uma só delas, abalará toda a unidade. Daí os conflitos, as convulsões sociais, o ódio, o preconceito, a negação das diferenças entre os seres humanos. Deve haver um movimento enérgico entre todos nós; é ele, que nos leva ao equilíbrio e à Paz. A essência da Paz é a superação das desigualdades e é isso que não dá para entender: aceitamos as desigualdades sociais, financeiras, profissionais, mas não aceitamos as individuais, de raça, credo e cor. Assim, a convivência entre as diferenças fica muito difícil! O movimento de um para outro ser humano é único: não existe o movimento nosso e o movimento dos outros: tudo tem a ver com tudo! Essa é a consciência da interligação entre todos nós.O equilíbrio, é a mínima igualdade entre forças opostas, que vem do movimento e leva ao concenso. Essa compreensão é necessária, e só a conseguiremos através da informação, do conhecimento e da sabedoria. Porque Paz, é muito mais, do que simples ausência de conflito.
Ao compreendermos, pela percepção, o que acontece, adequamos os nossos movimentos às necessidades do nosso semelhante, deixando-o expressar suas convicções, e ocupar o seu lugar na colectividade, assim, estaremos a contribuir para um mundo melhor. O problema gerador de mazelas físicas, sociais e morais é uma questão de envolvimento, ou antes, de falta de envolvimento com os outros. Perdemos energia preciosa a tentar tirar as oportunidades dos outros porque nos achamos detentores da “verdade”. Que verdade é essa, num mundo cheio de multiplicidades, e onde tudo é relativo? O que é bom ou certo para mim, não o será para o João. E daí? Que o João encontre o “seu” bom, descubra a “sua” verdade!
A humanidade chegou a um impasse: atingimos um alto grau de saturação chegando ao ponto de não termos mais nada a perder, de estarmos sem saída. Será que, na iminência do desastre total, encontraremos o ponto de fé dentro de nós, a faísca criativa que nos anima, e teremos Paz – o único caminho possível que levará o mundo do caos ao cosmos?

Texto retirado da internet

As Mulheres Que nos Habitam


Quantas mulheres, existem dentro de uma mesma mulher? Quantas estrelas, cintilam na noite de um único céu? Quantos rios, desaguam num mesmo oceano? Quantos beijos, aguardam ansiosos, o naufrágio em uma única boca? São Marias, Joanas, Teresas. Cada qual, esconde os seus segredos, suas paixões, suas dúvidas, seus desejos. Rugas, brotadas pelo tempo que ainda insiste em disfarçar a sua essência. Na batalha pelo prazer, eis que surgem: guerreiras, invasoras, desveladas. Quantas delas, se perderam sem jamais terem sido notadas? Quantas, perderam seu brilho abafadas pela dor, pelos traumas, pelos desamores?! E quantas outras, ainda insistem em impor sua presença, ainda que percam a alma... Quantas mulheres ofuscam como estrelas? Quantas estrelas, guardam em si, uma Maria? Caminhos percorridos, tendo somente seu instinto como guia. Temores resguardados pela subtileza de um único verbo: Amar. Esperas, desvios, enganos, traições, pactos e implosões de desencontros. Mesmo em derrota, ainda lampeja a primazia de toda a sua existência: Apaixonarem-se.
Ah! Elas são bocas que não calam o desejo deste beijo. Num empurra-empurra de excelências, enroscam-se em seus membros, tropeçam em seus prazeres incontidos e absolutos, buscando ainda, o assalto primoroso desta peleja: Tornarem-se estrelas, no espectáculo do seu êxtase!

Sou, Uma Mulher de Entardeceres...


Descobri que sou uma mulher de entardeceres.

Sim, pertenço aqueles entardeceres, que vão aos poucos, criando e exibindo toda uma gama de tonalidades violáceas, róseas e douradas. Daqueles entardeceres encantados... momentos de suspensão, onde o tempo pára por alguns segundos e onde os céus, não ostentam já o brilho do dia, nem ainda, o veludo escuro da noite. Ah!... momento mágico, em que o sentir fica intraduzível e, no qual, qualquer palavra soa supérflua.

Admiro as mulheres práticas que se levantam com o nascer do Sol. Que fazem com as próprias mãos, os aromas e sabores do pequeno almoço, e emanam, aquele frescor e energia matinal.

São elas que constroem o mundo, são elas que cuidam das coisas praticas. Eu não sou uma delas. Raramente vejo a Lua ceder o seu lugar ao Sol, a não ser, que seja depois de uma noite longa. Incluo-me no rol, das que não sabem definir o misto de nostalgia e poesia, que permeia cada pôr-do-sol.

Sou, das que sorvem com a alma as tintas fantásticas do poente. Gosto daquele momento do dia que já não pertence ao Sol, mas também, ainda, não pertence à Lua. Gosto daquele momento, que pertence apenas, aos que, conseguem identificar com a alma, a luminosidade exacta do momento.

Sou de uma raça, que não constroi com as próprias mãos o mundo físico, mas mantêm-no sonhando o suficiente, para que não enlouqueça.

Sou daquela espécie de gente, que não é sombra nem é luz, mas que consegue ter todas as cores do entardecer no olhar.

Sou uma mulher, que entardece longe do fogo sufocante e urgente da luz solar, aguardando serenamente que a prata do luar venha tocar-lhe a pele, sem urgências, sem exigências. Deixando escorrer suavemente sobre o corpo e a alma, cada matiz da luz que finda o dia. Tal como uma amante, que ama com vagar, profundidade e delicadeza o seu companheiro.

Se a tua alma, também voa pelos entardeceres e também viaja pelas luzes difusas do fim do dia, sabes do que estou falando.

Quando, na próxima vez que estiveres imerso na contemplação dessas luzes e cores... amplia o teu sentir, e com certeza, encontrar-me-ás lá, admirando, e vivendo intensamente de corpo e alma, o momento mágico do pôr-do-sol...
Texto adaptado
Texto retirado da internet.

Véus


Envolves-me de véus sem peso... lenços de água... coisas etéreas que me fazem aceitar-te em mim... gostar que venhas!... Mesmo que todo tu me arrastes para o fundo!... Mesmo que algo em mim se vá afundando por tua causa... sob a vertigem viciante da tua presença aqui... em mim... Leveza enganadora a tua!... E sabe-lo, é ainda descer mais... deixar-me ir na direcção de um fundo sem alcance... Sabe-lo, é persistir. Aqui. Contigo. Neste abismo de águas que mentem, quando se dizem cristalinas e o não são... Afundo-me contigo, sob o peso indelével desses véus sem peso, que me ofereces para me fazer Princesa... desses lenços de água, com que me envolves, fingindo um cuidado que afinal não tens... Acreditando, que sou sim, a Tua Menina!...

Presa a ti!


Estou presa a ti, por indeléveis fios de nylon... fina rede delicada, que me trás ao centro e me puxa para aqui.

Estou dentro de uma noite de veludo azul e negro, e envio-te um beijo da cor da lua.

Estou aqui: na orla da parede, com uma sombra de árvores, a oscilar-me na saudade.

Estou para cá desse lugar, onde só muito aparentemente não me vês esta noite.

Estou onde te disse que ficaria.

Aqui.

Adeus


Às vezes tu dizias:

os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava,

Acreditava, porque ao teu lado,

todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos.

Era no tempo, em que o teu corpo era um aquário.

Era no tempo, em que os meus olhos,

eram os tais peixes verdes.

Hoje, são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade:

uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor...

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza,

de que todas as coisas estremeciam,

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar um ao outro.

Dentro de ti,

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus


(Eugénio de Andrade)

Proscrita


"Fala baixinho, para que a tua voz se dilua num rumor sem rosto. Temos para ti, a branca túnica das proscritas. Guardamos-te uma mancha escarlate ao centro da testa para avisar o mundo. Alinhámos-te por entre os cabides vazios das profanações sem nome. Consentimos o desfile e deixámos que sejas mais uma. E isso basta, não venhas pedinchar por mais. Cedemos-te o melhor da nossa hipócrisia mais delicada. É tua a nossa benevolência se te mantiveres na estrada de trás. Que mais reclamas tu?!... Deixamos para ti largas avenidas subterrâneas, onde podes pisar áquem do zelo e do cuidado. Mas não venhas galgar superfícies e avançar-nos os corredores. Pertences ao cortejo fantasma das Mulheres-Sombra, sem corpo e desalmadas, que banimos do centro do Grande Salão e não queremos sentadas à nossa mesa, navegando nos nossos mares, aportando à branca areia das nossas praias alvas. Trazes a perigosa ancora das palavras ditas em voz alta e uma bandeira demasiado garrida hasteada na proa. Trazes outras como tu: Mulheres-Corsárias a reclamar águas de ninguém e leis e vontades e lutas menos brandas, menos santas, menos cegas. Senhora das Ondas de maré teimosa, nós te tememos!... Perturbas-nos o longo sono dos surdos, desafias-nos o acordo dos séculos, a cada vez que palpitas o pulso contra a nossa mão pesada de pedra e castigos. Cresce a multidão que te aguarda no paredão do cais, Senhora! Cresce a multidão que afina na toada do teu hino mais livre, mais justo, mais sensato!... E nós não sabemos dessa outra ordem, Senhora! Não sabemos dessa outra nação que devagar se vai rasgando dentro do nosso país. Não sabemos, senhora!... Não sabíamos!... "

Ano... 2070


Acabo de completar 50 anos, mas a minha aparência, é a de alguém com 85. Tenho sérios problemas renais, porque bebo muito pouca água. Creio, que me resta pouco tempo! Hoje, sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade. Recordo quando tinha cinco anos. Tudo era muito diferente. Havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro. Agora, usamos toalhas de azeite mineral para limpar a pele. Antes, todas as mulheres mostravam seus lindos cabelos. Agora, devemos raspar a cabeça para mantê-la limpa, pois não há água. Antes, o meu pai lavava o carro com uma mangueira. Hoje não se acredita que a água se utilizava dessa forma. Recordo que havia muitos anúncios na altura, que diziam - Cuidem da água! Só que ninguém lhes ligava. Pensávamos que a água jamais podia acabar. Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aquíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados. Antes, a quantidade de água indicada como ideal para beber eram oito copos por dia por pessoa adulta. Hoje, posso beber meio copo. A roupa é descartável, o que aumenta grandemente a quantidade de lixo e, tivemos que voltar a usar os poços sépticos (fossas) como no século passado, porque as redes de esgotos não se usam por falta de água. A aparência da população é horrorosa; corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele, provocadas pelos raios ultravioletas que não tem a camada de ozono que os filtrava na atmosfera.Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados. A indústria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessalinizadoras, são as principais fontes de emprego e pagam-nos em água potável os salários. Os assaltos, por uma garrafa água são comuns nas ruas desertas. A comida e' 80% sintética. Pela pele ressequida, uma jovem de 20 anos aparenta ter 40. Os cientistas investigam, mas não parece haver solução possível. Não se pode fabricar agua, e o oxigénio também está degradado por falta de árvores. Isso ajuda a diminuir o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se também a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos e como consequência, muitas crianças com insuficiências, mutações e deformações. O governo cobra-nos pelo ar que respiramos. As pessoas que não podem pagar são retiradas das "zonas ventiladas". Estas estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam a energia solar. Embora não sendo de boa qualidade, pode-se respirar. A idade media é de 35 anos. Em alguns países existem manchas de vegetação, normalmente perto de um rio. São fortemente vigiadas pelo exercito. A água tornou-se num tesouro muito cobiçado - mais do que o ouro ou os diamantes. Aqui não árvores, porque quase nunca chove e quando se registra precipitação, a chuva é ácida. As estações do ano têm sido severamente alteradas pelos testes atómicos. Advertiam-nos que devíamos cuidar do meio ambiente e ninguém fez caso. Quando a minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem, descrevo o bonito que eram os bosques, falo-lhe da chuva, das flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse! Então ela pergunta-me: mãe... Porque se acabou a água? Sinto um nó na garganta; não deixo de me sentir culpada, porque pertenço à geração que foi destruindo o meio ambiente ou simplesmente não levou em conta tantos avisos. Agora os nossos filhos pagam um preço alto e sinceramente, creio que a vida na terra não será possível dentro de muito pouco tempo porque, a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível. Como gostaria de voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isto, quando ainda podíamos fazer alguma coisa para salvar o nosso planeta.
Texto Retirado da internet.