domingo, 30 de setembro de 2007

Os Amigos


Os Amigos fazem parte dos nossos alicerces emocionais:

São ganhos que a passagem do tempo nos concede.

Falo daqueles (as), a quem podemos telefonar, não importando onde estejam, nem que horas sejam e dizer: "estou mal, preciso de ti”.

Às vezes nem é preciso dizer nada. Ele, ou ela, virá ter connosco de carro, de avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente… ficando ao telefone, o tempo necessário para que nos recuperemos, reencontremos, aprumemos, ou seja lá o que for.

Falo daquelas amizades para as quais, somos apenas nós, pessoas com manias e brincadeiras, eventuais tristezas, erros e acertos.

A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele, mas sem o ónus do ciúme – o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. Ser amigo, é rirmos juntos, é dar o ombro para chorar, é poder criticar (com carinho), é podermos apresentar o namorado ou a namorada. É podermos aparecer de chinelos, de roupão, é até, poder zangarmo-nos e voltarmos um minuto depois, sem termos que dar explicação.
Amigo, é aquele a quem recorremos quando estamos angustiados, e que chega para nos confortar e nos chama, linda, querida, mesmo que nos estejamos a sentir um trapo.

Ter amigos e amigas, é um bem maior e ninguém pode ser feliz, sem eles.

“Há a história de uma senhora, que se vangloriava de não precisar de amigos: "Tenho o meu marido, os meus filhos e isso chega-me". Mas um dia, o marido morreu, os filhos, cresceram, seguiram a sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis, injuriada, como se o destino, lhe tivesse pregado uma partida.

Esqueceu-se que os amigos, não nascem do nada como frutos do acaso: são cultivados, sem esforço, sem adubos especiais, sem método, nem aflição, mas crescendo, como crescem as árvores e as crianças quando não lhes falta a luz, o espaço, o afecto.
Nesta página, hoje e sem uma razão em especial, quero homenagear esses seres especiais, que estão connosco e vão continuar a estar, seja como for, para o que der e vier, mesmo quando estejamos cansados, burros, irritados ou desanimados.

É isso o bom da amizade, não precisamos sacrificar-nos, fazer malabarismos sexuais, inventar desculpas, esconder rugas ou tristezas. Podemos simplesmente, ser nós próprios. Que alívio isso, quando vivemos, num mundo complicado e desanimador, deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo. Pois é, o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezes irritante; pode até se afastar, mas sabemos que volta; ele aguenta-nos e acalma-nos, dá-nos impulso e abrigo, e faz de nós, seres melhores: como um verdadeiro amor.

Momentos


Há momentos na vida, em que temos que abrir mão de tudo o que fazia sentido. Das nossas verdades e do que reputávamos como sendo os nossos valores. Constatamos que eles se tornaram inúteis ao nosso crescimento, já fazem parte do passado e a vida, não se detém olhando para trás, antes, caminha para a frente, em busca de novos acontecimentos. Há momentos na vida, que todas as vigas mestras que asseguravam a nossa sustentação vêm abaixo e a casa cai, independente da nossa tácita recusa ou inaceitação. Há momentos na vida, que ficamos sem saber para onde ir, que nada consegue nos alegrar, motivar ou seduzir e, em compasso de espera, vamos assistindo à fragmentação das nossas estruturas, agora transformadas em quimeras. Nestes momentos ( que têm o peso de uma eternidade), nada nem ninguém pode fazer nada por nós ... estamos definitivamente vazios e sós, porque até a Natureza se cala e Deus perde a fala, indiferente ao nosso torpor. No meio da dor, esmiuçamos o que sobrou de nós, remexemos entre os escombros e descobrimos que algo ainda não morreu. Tênue e frágil, lá está uma pequena centelha de esperança, aguardando uma viragem do destino, que certamente nos surpreenderá com novas alegrias ... e com tantos outros desatinos. Momentos ...

Introspecção


Uma e outra vez, cumpro-me na sentença maldita.
Karma acumulado de muitas vidas por consumar? Quem sabe? …
Estiolo por dentro, cativa deste secular torpor, aos rés de mim, do que sei, do que sempre me foi permitido saber. E as interrogações surgem, em cascatas. Miríades de interrogações inquietantes, cruéis, fundamentalistas…
De que me vale, hoje, a intuição apurada e a sapiência das velhas e profundas cicatrizes que ainda guardo na memória, se carrego na alma, como extenso novelo emaranhado, o espectro abortivo da minha eterna contradição?
Repito o erro, uma e outra vez. Sempre, num crescendo aflitivo e dramático de intensidade. A dor, da vez primordial é, agora, uma pequena e risível gota no enorme oceano que, entretanto, se formou a partir das gotas cada vez mais vastas de todas as dores que, invariavelmente, se foram acoplando.
Contrario o coração. Finto a essência com o acessório, deixando de lado o essencial que só com os olhos bem despertos da alma consigo sentir…
Razões, sem nexo para um desarrozado completo de razões invocadas! A matemática não falha, diz-se! A lógica do ilógico, revela-se sempre inteira e exacta, na exacta medida do que vamos, maciça e destrutivamente, em nós, construindo. Perde-se a noção do tempo e do espaço, como se caminhar fosse apenas um fim e não um meio para chegar a qualquer lugar. E assim se vai delineando um percurso de trevas, complacentemente, ao sabor de ventos e marés, num jogo de quase perfeito encaixe, colhendo, pelo caminho, os frutos podres e bichosos – os frutos possíveis – que ninguém aproveitou e desejando, sempre, os outros, os maduros, perfumados e sumarentos, prémio merecido de quem muito se esforçou para os obter.
Contrario vontades, desejos, até, pulsões vitais! Tudo, em prol da inconsistente ausência de conflito. Sem querer, devo ter herdado a compaixão e o gene mártir de Madre Teresa de Calcutá! O gene do desprendimento, do amor pelo próximo mais do que por mim própria. A capacidade de me auto punir e flagelar sentimentos, em proveito dos sentimentos alheios…
Pergunto-me friamente sobre a origem desta abnegada benevolência… E como quase sempre, entro em completa contradição: Bondade infinita, altruísmo? Ou, enferma alienação e indulgente covardia?
Não suporto batalhas campais. Duelos de titãs. A competição nua e crua, desenfreada. O ganhar ou perder. O perder, quase sempre, mesmo quando se ganhou…
Revolvo-me por dentro, dada novamente ao castigo, como alma secularmente supliciada, vagamente a planar sobre a desdenhosa mas ineficaz placidez da minha própria indignação, em círculos perfeitos de viciosa desdita.
Baixo os braços frouxos, num gesto pesado de desgosto consentido, de contrafeita submissão e arrasto a cortina sombria do olhar sobre o meu muro branco de amplas e intransponíveis lamentações.
Porquê?
Porque deixo que desfile continuamente, ante a aflitiva descrença do meu olhar atento que tanto almeja, a precariedade sórdida e desgastante de um carácter que tinha tudo para ser forte e fecundo?
Porquê, esta incoerência abissal entre o pensamento rápido, lógico, incisivo e impulsionador e a conduta, amorfa, ilógica, medrosa e displicente?
Porquê este arrastamento, em agonia, sem fim à vista?
Porquê, esta permanente e perpetuada trégua com a pequenez balofa da existência? …
Porquê, se a vida não se faz sozinha, nem se dá, assim, em bandeja de prata para que uns e outros, nela, vão servindo, bastamente, a sua gula e outros apetites surreais? Porque teço, então, dia após dia, uma ilusão prenhe que à noite não me canso de fazer desfiar?
Porque insisto num destino de Penélope, se tenho ao meu alcance o fulgor mágico e protector das estrelas que abrilhantam todo o firmamento?
Porquê?
Porque bebo, das horas sem fim, o veneno letal e apago do trilho percorrido, na ânsia de nunca chegar a porto algum, o rasto balsâmico de flores e de mel dos dias serenos e felizes em que apenas bastava respirar, a verdade, a plenos pulmões?
Porquê?
O ar, sofregamente inalado, misto de crença cega e de insensata inoperância, rebentou-me as narinas, trouxe-me de volta o odor adocicado e nauseabundo do sangue quente e o ardor incisivo e doloroso das chagas abertas.
E agora, tantas marés e luas volvidas, a dor continua, em surdina, a alastrar, sem dó nem piedade. Toma-me o corpo e o espírito. Tolhe-me os movimentos. Paralisa-me o cérebro. Confina-me ao espectro a que me deixei reduzir.
Pouco há, já, talvez, que possa ser feito…
Sangro toda a minha fatídica existência, confinada a redomas de cristal reluzente. Esvaio-me no meu próprio sangue, vertido, entre as imaculadas paredes deste tétrico faz-de-conta. Sofro as dores imensas e intensas de não ter aprendido a viver para além delas...
Confundo-me! Não sei se o que, ainda, me mantém o brilho, é meu, se do vítreo cárcere que me tem servido de casulo… Desconheço se o que vivo é real, se apenas forjado para ludibriar o desespero de ver passar os dias, os meses e os anos, inalteravelmente, iguais.
Não sei quem sou, por que espero, para onde me conduzem as incertezas e o trilho hesitante e vago das minhas peugadas…
Rendida, diante de inegáveis evidências, sei, apenas, que entre o brilho do espelho que me reflecte com fulgor e a minha fosca e macilenta realidade, há uma triste e cada vez mais pungente coincidência…

(Tender)

Falar de Amor


Falar de amor é falar de tudo, é falar de nada…
É beber, das emoções, os mais ínfimos detalhes.
É distinguir, na lucidez, os esboços ténues e indefinidos da loucura.
É sentir correr, em nós, a ternura como rio cheio, e deixá-la extravasar.
É o aconchego diário da esperança, como manta de retalhos que se cerze e acrescenta.
É multiplicar sobressaltos, dúvidas e contradições e aprender a geri-los e a viver com elas.
É dividir sonhos, projectos e cumplicidades, tanto como tristezas, dores e amarguras.
É subtrair egoísmo ao individualismo.
É acrescentar verdade e a dose certa de condescendência, de equilíbrio e de bom-senso.
É querer muito bem e confiar.
É não ter medo de entregar o corpo, a alma e o coração.
É ter prazer em dar sem exigir a retribuição directa e proporcional dos afectos dados.
É permitir que o outro nos ame de acordo com as suas capacidades próprias de amar.
É não criar expectativas sobre atitudes e comportamentos do outro
– é perceber que ele(a) já existia como um complexo sistema de vida antes, e que assim há-de persistir durante e depois.
É não guardar ressentimentos quando sentimos que todas as expectativas que não soubemos travar a tempo, foram goradas.
É saber perdoar e pedir perdão.
É perceber e aceitar que cada um tem razões que a própria razão desconhece.
É saber dar o benefício da dúvida.
É gostar do outro exactamente como ele (a) é e não como gostaríamos que fosse.
É conceder asas e, sem medos ou traumas pessoais, incentivar a voar.
É ajudar o outro a escalar o seu próprio Everest.
É permitir-lhe a humanidade de tropeçar e de cair.
É ampará-lo, quando quiser levantar-se.
É não ter a veleidade de julgar que o nosso conselho é o que melhor serve à tomada de decisão do outro.
É aprender a lidar com o desapontamento quando o outro descura o nosso conselho.
É aprender, a aprender, com os nossos próprios erros e com os erros do outro.
É ter a humildade de aceitar que nunca saberemos tudo mas que estamos sempre a tempo de aprender mais.
É ter a inteligência de perceber que não há verdades absolutas.
É permitir, ao outro, a liberdade de caminhar lado a lado, connosco.
É exultar, tanto, com as descobertas que o outro faz, como com as nossas próprias descobertas.
É crescer mais e melhor, a cada novo aprendizado em conjunto.
É saber que se aprende menos enquanto se está sozinho.
É estar desperto para a vida e para a diversidade.
É perceber que ser diferente não é ser melhor nem pior: é apenas uma possibilidade entre muitas a que todos temos direito.
Falar de amor é falar, também, da nossa pequenez face à capacidade de o sentir e de o viver.
É falar dos limites contingenciais impostos pelas nossas emoções.
É falar, daqueles olhos que, sendo apenas bonitos, os nossos olhos vêem belos demais…
E de outros olhos que, não sendo míopes, cegam, por não quererem ver o que os nossos olhos alcançam…
Falar de amor é falar de tudo isto… é falar de nada, é falar de muito mais!

(Tender)