domingo, 3 de maio de 2009

Ser Mãe...


Descobri um dia
Que no meu corpo, trazia a poesia
No seu sentindo mais profundo.

Descobri que eu era a flor que semeava o mundo
E que arava a terra de Esperanças…
Porque no meu ventre, trazia o sorriso de uma criança.

Senti-me responsável pela humanidade
E veio através de mim, o amor em forma de realidade
A vida no seu sentido mais lato...

Hoje sei, que ser mãe, é muito mais que um acto de amor...
Ser mãe, é um acto de coragem…
Ser mãe, é um acto de generosidade com a vida
É ser mais que uma simples mulher!

Ser mãe, é ser guerreira
Ser mãe, é ter orgulho
Sofrer, amar incondicionalmente, chorar, rir, enfim
Ser mãe, é ter o Miguel – que é tudo para mim

Que todas as mães do mundo possam ser felizes

FELIZ DIA DA MÃE!

sábado, 2 de maio de 2009

O Ciclo do Amor



Gosto de sentir o calor da terra no meu corpo! Apetece-me deixar que a terra me incorpore como sua, enquanto te espero no limbo de cada noite. Nestes tálamos nossos onde somos, meu amor, a origem e o fim de todas as nascentes.
Imagino-me raiz cravada no húmus, caule presumido de terra, tronco erecto saindo
do seu leito telúrico, para me abraçar na eternidade de te querer...
Corre mansamente, o ribeiro dos sentidos na volúpia da espera.
As minhas mãos são já folhas e os meus braços troncos, toda eu, telúrico desejo de esmorecer na brandura fértil dos teus braços.
Despertarei com a seda do teu toque, que me seguirá a curva do seio, até à concha do ventre, parando nesse lugar onde mora, o segredo de uma mulher.
No estio do sonho, na sua crina azul ao vento, estremeço, como superfície da água que uma pedra perturbasse.
São círculos concêntricos dos teus dedos em redor de um epigrama inventado pelos teus caprichos de amante.
Não paras de tocar o meu corpo com a doçura do violinista pelo seu velho violino. Tão alheado de mim, como se a minha pele te contasse histórias, que só tu lês.
Como um Braille inscrito no meu corpo que tacteias.
E eu, fundo-me com a Terra mãe e sou por ti arada, revolta, aberta, lavrada para a sementeira. Ah, meu amor, a suavidade única dos teus dedos. Esse arrepio, que me rasga os sentidos em mil bocados de papel suavemente incandescentes!
O meu corpo suspenso nas tuas mãos, depois na tua língua e então, as bocas procuram-se e selam o silêncio dos corpos...
Soergues-me para ti e cravas no meu sexo, a tua boca sequiosa, em murmúrios de sofreguidão e sede. De terra passo a Fogo, à medida que as tuas mãos me moldam para o teu gozo.
Na impiedade da tua boca, incandescências mil ocorrem no epicentro do meu corpo, enquanto o magma dos teus dedos se precipita na minha pele, rápido, voluptuoso,
com a voracidade e a urgência das madrugadas que perdemos.
Sou então a própria árvore da vida ardendo de braços erectos para o céu.
O fogo atinge a mancha breve dos cabelos, eu desprendo-me em murmúrios inconcludentes e procuro na tua pele a frescura que me salvará. Penetras-me com súbita urgência, ficando então ambos a planar abraçados, como se invisível tapete mágico nos levasse pelos ares em direcção aos quatro pontos cardeais: uma espiral por onde se escoa o próprio tempo. Somos agora a leveza do Ar rarefeito nos sentidos e caímos de cascatas de cor azul, onde o arco-íris se decompõe nas cores do nosso riso. Poucas pessoas riem, enquanto fazem amor. Mas tu ris. E fazes-me rir, com as coisas que me dizes. Somos o próprio tecto do mundo na leveza do riso. Então, em espasmos, em ondas, em vagas, em remoinhos, num diálogo de corpos e de sons, semeamos o ar com o harpejo das vozes subitamente enrouquecidas, vindas de um ponto distante do olhar. Tu suspiras, eu suspiro e somos de novo a Água primordial da vida, nos corpos exaustos, transpirados, aguados de doces fluidos.
Adormecemos terra nos braços da ternura. O sonho nos recolherá em seu cadinho de alquimista e de novo as duas gotas que sobraram da transmutação dos elementos se transformarão no perfume raro do desejo... O ciclo do amor uma e outra vez em nossos corpos se renova, noite após noite, enquanto a paixão nos elevar, a essa atracção elementar, que sempre uniu e unirá, um homem e uma mulher.

Deste Lado Do Espelho



Deste lado do espelho vê-se o passar dos exércitos dispersos pela derrota. Entrincheirada nas minhas incertezas, assisto ao bailado dos dias e mistifico o que não entendo. Bebo este vinho entardecido numa garrafa que como eu não respirou. Entrecortadamente vêm-me à memória os dias em que o céu se rasgou para trazer a embriaguez das palavras. É como beber a incerteza e decantá-la linearmente para meu prazer. Aspiro o odor das palavras, capto-lhes o sabor, bebo-as de esperança e engano-me, ah, como me engano aqui deste lado do espelho!

Soam as badaladas de um relógio maluco que resolveu cantar avé-marias ao meu ouvido. Como se não fosse fácil acreditá-lo, quando me diz que a noite eterna se esqueceu de me esperar... Tal como o amor o tempo pode vir tarde, e não ser mais que este sonambulismo de carros urdindo nas cidades a teia do trânsito. Nesta casa só ficou o relógio, o espelho e as teias que me cobrem de pensamentos pegajosos. Nem sequer fiquei eu... Só a teia da sedução, o epicentro da teia onde a aranha nos promete amor, como à noiva de Dickens promete a vinda do noivo e apenas lhe cobre de mais teias o aparato nupcial...

Palavras que se nos pegam ao corpo, assomam ao olhar, devoram o desejo em desejo, cortam o luar em fatias de luz e um cigarro apagado cai dos lábrios cansados ferindo apenas a madrugada. Nestas noites brancas deambulo pelas cidades eternas, onde podia ter sido nomeda aquela-que-foi-feliz. Vou-me reconciliando com os prédios, com as estátuas e as pessoas. Ando suspensa de um fio de prumo que rasa o fio dos eléctricos a descer uma possível Rua da Graça ou de qualquer outra improvável qualidade. Mas não há na calçada som doutros passos a não ser os meus.

Lembro-me das telas que pintei à busca das palavras e ficaram penduradas na esperança de as encontrar. "Estes esboços patéticos foram feitos pela senhora que aqui morou. Não os quis. Desapareceu no ruído da cidade levando apenas o som dos seus passos sós na calçada. Partiu em demanda das palavras. Se as encontrar, voltará mais vazia mas não lhe digam nada. Todos os homens que encontrou tatuou-os de palavras e amou-os para além das palavras. Encontraram-na num beco esfaqueada de palavras, com uma palavra inerte a escorrer dos lábios frios. Do outro lado do espelho, ouço-lhe os gritos mas não a ouço. Desconfio que a sua loucura é um salmo bíblico injectado por palavras fora de prazo. Se a virem, não lhe liguem. Morreu seca de palavras sem nunca ter proferido a palavra hirta que lhe escorre dos lábios, sonhando que a cidade se abria à dimensão do seu sonho prodigioso, desvairada pelas fontes e lugares de culto, julgando que choveriam monções nos seus ombros destapados. Parou num farol à beira do nada. Era apenas um cais sem barcos. Aí se deixou ficar a sonhar com o seu mercador de palavras. Nada sente na sua loucura estilhaçada. Nem as pedradas dos meninos distraídos a alcançarão para lá dos vidros partidos das janelas sem vidros nem portadas - uma casa, apenas, uma casa abandonada por todas as palavras..."

Por que se quebraram estas lágrimas cansadas? E por que me olham daí em suspenso? O presente é a espiação das batalhas que me venceram, uma a uma, até ao dia em que me gravarem em mármore rosa o epitáfio da complacência. Nunca se deve olhar para um espelho numa casa vazia. Para lá dos estilhaçados dias, dos caixilhos quebrados, esmaecidos, feridos de palavras, existo eu, em todas as casas abandonadas, alguém que vos olha do outro lado do tempo sem sorrir... apenas eco de palavras.