quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Acordo Cansada...











Acordo cansada de mim, deste sentir fecundo, mas estéril de afectos realmente consumados… De fingir que estou AQUI, quando me ausentei e vagueio, perdida, sem descortinar por que obscuras razões subsistem, ainda, pontos cardeais… De inventar alegorias e paradigmas vários, para tentar escusar-me à crua realidade que, furiosamente, teima em engolir-me, inteira e de um só trago … De inventar AMOR, aos molhos, como quem veste alegremente os lábios de sorrisos purpúreos, estando prestes a perecer, cristalizada, no sal das lágrimas que lhe banham o rosto… Estilhaçam as delicadas vidraças da minha Alma! Lívida e fria, afogo-me no turbulento caudal do meu próprio desespero, por consentido excesso de gente, no âmago desta solidão total que mais ninguém vê… Avulta silêncio em todas as esquinas do meu Ser! O espectro da morte, negro e sombrio, arrasta-se-me pesadamente na vida… Acordo cansada de mim, deste sentir fecundo, mas estéril de afectos realmente consumados…

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Querido Pai










Doença De Alzheimer


Como eu gostaria poder ter o teu carinho de novo, voltares para mim.
Abraço-te, beijo-te, tu não reages, manténs-te hirto olhando-me com esse olhar vago que vieste a adquirir. Tão vago, como vaga e estranha, eu começo a ser para ti.
Olho-te fundo nos olhos…
Lembraste paizinho? Sou eu, a tua filha, a única, a que amavas (ainda amas, mas não sabes) incondicionalmente.
Preciso de ti meu querido, preciso do teu sorriso, da tua boa disposição, como gostavas de rir e fazer rir…
Hoje, nos momentos de maior lucidez, vejo-te chorar, essas lágrimas, que me partem o coração. Não receies pai, eu estou aqui, ao teu lado, sempre!
Quando eu era pequenina e até mesmo depois de crescer, casar, ser mãe, tu sempre me protegeste, sempre me apoiaste, é essa protecção e esse apoio, que eu te vou dar a ti, também. Cuidarei sempre de ti.
Amo-te muito, querido pai!

A Lua Como Testemunha













Convidei-te para casar, assim, como quem convida para dançar. Olhaste para mim, com esses grandes olhos azuis, sem quereres acreditar.
A nossa relação sempre primou, pela indefinição. Passos à frente, passos atrás, quero, não quero, deixo-me ir, não me deixo ir…
Nunca te quis amar (apesar de te amar), fugi de ti e de todas as outras, que me quiseram “agarrar”.
Eu, e a minha independência. Essa sim, a minha amante de sempre.
Lutei! Ah, como eu lutei! Lutei para te resistir, resistir a esse olhar doce, terno e inteligente, a essa menina mulher, que cada vez mais me encantava e seduzia, a esse corpo!... Meu Deus, esse teu corpo, que só de o imaginar, me sinto incendiar… mas tu, conhecedora profunda dos teus poderes e dos teus desejos, não facilitavas, estavas sempre lá!
Essa noite decidi-me, eu amava-te e não havia como fugir a essa verdade cada vez mais flagrante.
Sorriste, com esse teu sorriso de eterna criança, que me derrete o coração, aproximaste-te de mim, deste-me um beijo na face e segredaste-me ao ouvido – “sim amor”.
O teu perfume e o toque dos teus lábios, deixou-me na pele um ardor, um feitiço, outro.
Tudo à nossa volta parou, deixamos de ouvir os ruídos que nos rodeava, dentro de nós, ouvia-se uma música, a música dos amantes e foi ao ritmo dessa música, só tocada para nós, que nos abraçamos, beijámos e nos devorámos.
Os nossos corpos fundiram-se num só, com urgente frenesim, em espasmos de intenso prazer, entregamo-nos, como nunca antes, o tínhamos feito. A noite encheu-se de estrelas e a lua, espreitando atrevida pela nossa janela, foi testemunha, deste nosso pacto de Amor!

(Nota do autor:
- Vi-me aqui como personagem masculino, soltei a imaginação e deixei-me levar.)

O vento leva-me o lamento













Saudade de ti
De mim
De nós
Esta saudade
Que no meu peito arde
Aguardando que um dia venhas
e com os teus lábios húmidos
Sacies esta sede
Que de ti tenho

O vento leva-me o lamento
Ouves?
É por ti que choro
É por ti que anseio
É por ti que espero
E desespero

Estas lágrimas que deito
Perdem-se no mar profundo
Rasga-se o peito
Em mil tormentos
E na minha boca
Sinto o sabor a fel
Do meu amargo desgosto

sábado, 27 de setembro de 2008

Devaneios?!










Esta manhã fui seda no corpo amado. Deslizou na minha cama como fauno enlouquecido de desejo. Senti as mãos urgentes em passeio tresloucado pelo meu sono e docemente comecei a abraçar o dia e o prazer. Visitou-me os seios peregrinos, subiu e desceu por essas colinas plantadas no centro do desejo, elevando-me os bicos ecuménicos à silente promessa de prazer. Apetecia-me ficar ali, fingindo que me banhava ainda nas águas do sono, reprimindo as mãos, afagando a doçura do lençol, virando a sensual esquina dos sentidos, quando o nosso corpo se queda, ensurdece, emudece e apenas o gosto, o tacto nos apetecem. E fiquei. Prolonguei até à eternidade do prazer essa semi-inconsciência entre o sono e a vida. Uma ave esvoaçou sobre o meu corpo, um grito agudo que me rasgou a carne, mas não olhei. Um cão rosnou perto de mim e era negro, mas não vi. Deixei-me apenas encadear no fernesim impossível de parar. O meu fauno resfolegou sobre o suor dos corpos. Eu suspirei e escorreguei pelas cascatas tensas dos sentidos, libertando-me enfim das suas garras... Estive ausente entre a espuma branca e o rumorejar intenso das águas. Voltei. Ainda agora não sei se foi apenas devaneio da mente cansada, se foi sonho vadio da madrugada. Acordei assim... Mimado o corpo, preenchida a alma, e vazia a cama.

Ninguém merece morrer assim! (Soneto)










Fui e vim, neste mar de hipocrisia que me rodeia
Gritei e supliquei, para que me dessem a mão
Sorriam, riam e naqueles esgares de canalhas
Só vi raiva, ódio, ciúme, inveja e nenhum perdão

Agora que me encontro no fundo da cratera
Que desespero neste meu infortúnio de vida
Ninguém me vale, ninguém me quer, sou proscrita
Afinal já não sou aquela mulher especial.

Fui luz brilhante num horizonte longínquo
Agora sou sombra que ensombra muitos viveres
Por isso, não querem sequer reconhecer-me...

Aqui jaz o meu corpo neste chão frio de mármore
Sem ninguém que o ampare, que o abrace e o ame
Que PUTA de vida, ninguém merece morrer assim!

Segredos










Da lua, que trauteio em courelas
de estéreis rochas lunares. Eu e tu,
em tempo de bonança na fenda desferida
na memória, sem retorno, sem aurora,
sem ânforas de sonhos e águas mornas,
sem a certeza cúmplice da permanência,
sem sabermos sequer onde há esperança...

Carícias











Carícias, cristal puro,
tinindo em nós
quando os gestos se deixam
cristalizar como borboletas
em voo pleno,
crisálidas abertas
ao calor do toque
cristalino das coisas
que nos sussurramos
impúdicos
calmaria de inverno em
cumplices cânticos
alva doação,
em alvoradas férteis,
boiando os corpos nas cristas
cintilantes, cadenciadas
das vagas ungidas da enseada.
Cristal retinido ao mero toque
do teu corpo seda azul
no meu regaço de pomba
rosa, quando vieres
para lá do tempo dos amores.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Ser Feliz... (Soneto)













Eu quero ser feliz! Quero?! Não, eu sou feliz!
Felicidade, palavra tantas vezes proclamada
Ditoso estado de alma, tantas vezes desejado,
Mas quase nunca conseguido e muitas vezes desperdiçado.

E para se ser feliz, é preciso tão pouco, basta querermos.
As pessoas, ainda não aprenderam, que para sermos felizes,
É só estar bem connosco e com os outros, por isso eu digo:
- Sim, meus senhores, sou muito, muito feliz!

A vida é caprichosa, madrasta e muitas vezes traiçoeira
Mas temos de saber dar a volta, pregar-lhe rasteiras, lutar
Não deixar o desânimo tomar conta de nós e ter esperança.

O que hoje nos parece negro, amanhã volta a ganhar cor.
Acender a luz do farol e esperar, que o navio da felicidade
Venha de mansinho, mas com rumo certo, ao nosso porto.

Lua Misteriosa











Vestida de noite, completa de luz,
acesos seus olhos num brilho azul
ela verte seu corpo para o amor.

Ávidos seus dedos, belo o seu sorriso
nela tudo é seda, luar ou segredo.

Vestida de si, coberta de nada
ela dá-se à noite como erva ao prado.

E eu fico a vê-la no escuro do meu quarto:
Lua misteriosa que me desvenda um segredo!
Vestida de noite, fecho a janela, abraço o meu leito.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Simulação



A simulação é a arte
de saber revelar sem
esconder aquilo que o ser
conhece e não conhece
sobre si e supõe
ser o único a saber.

Libertei-me









Seduzes-me com o teu olhar
Que se revela doce e meigo
(Quando queres)
Com os teus lábios macios
Beijas-me as pontas dos dedos
(Com preceito)
Mas por trás dessas doces maneiras
Está uma alma obscura
(Que intimida)
Aprendi com o tempo a conhecer-te
E não, não serei de novo a tua presa.
(Libertei-me)

Os Poetas...













Vêm pela noite escondidos no luar
Trazem o timbre emocionado das estrelas
E a cintilação ébria das abelhas
Ei-los...
Colhendo os murmúrios da escuridão
O corpo uma canção sem solfejo
O frio nos olhos quentes de desejo
E ternos mochos vigilantes
Escravos da dor cépticos dementes
Febris como corpo de amante
Uma semente sem terra, sem sol
Sem húmus que a receba e alimente
Ei-los.
Soltos às feras que se acobertam no silêncio
Rangendo os dentes da dor da ausência
Sentindo no limite das sombras negras
A inclinação silente dos seus poemas
Ei-los que escrevem com os corpos
O urros das feras solitárias
Nas cavernas obscuras imaginárias
Colhendo ainda verde a madrugada
Uma pétala de flor cheia de orvalho
Uma flor de sol embriagada. Mas...
Vem sempre a manhã e o sol romperá a bruma
No solo apenas uma memória de passos
Desenhados a sangue na caruma

Enquanto te Espero













Enquanto te espero
neste tule de desejo
sou noiva à porta da igreja
sem grinalda nem pureza
tu caminhas pelo meu corpo
com a sede do deserto...
e as minhas pernas serenas
embarcam no pulsar das estrelas
Eros virá nos teus dedos
a noite vibra entre os seios
a lua tange, eu sou piano
toco-me no vértice do espelho
a lua geme ao ver o arqueiro
a flecha parte certeira
horas dóceis na romanza
dos teus dedos sementeiras
e a noite brilha em solfejos
porque enquanto não vieres
fica só uma cratera acesa
para a adaga do teu beijo

A vida é uma viagem...


A vida é uma viagem, que nos leva do céu, ao inferno e vice-versa.
Por vezes calma, maravilhosa, outras vezes perigosa, vertiginosa.
Durante o seu percurso, vamos sofrendo mutações, que nos levam da chupeta à bengala, da alegria à tristeza, do prazer à dor.
Dor, que temos que aprender a dominar, para que a alegria, o prazer e o amor, possam sempre vingar.
Os meses vão passando, os dias e os anos… Anos, que todos os anos festejamos, para celebrar o passado, agradecer o presente, olhando expectantes o futuro… futuro esse, que já, já, será de novo presente.
Essa passagem do tempo é tão rápida, que a alguns de nós, chega a intimidar. A proximidade do último estágio, a chamada 3ª idade, nem sempre é bem entendida, nem pelos outros e nem sequer, por nós.
Temos medo, medo que o tempo, não nos dê tempo, para vivermos o nosso tempo.
Esquecemo-nos facilmente, que se crescemos, se avançámos, se estamos vivos, é porque superámos dificuldades e vencemos.
Cada ano que passa, é uma batalha ganha, uma luta vencida. Cada idade, tem a sua cor, o seu prazer e o seu sabor.
Temos que saber viver, porque o importante, não é estarmos vivos, mas sim, sentirmo-nos vivos.
A vida só é bela, se soubermos tirar dela, o máximo partido do tempo, que nos é concedido!...

Por isso:

VIVAMOS!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

NUA




Uma mulher está sempre nua, perante o olhar de um homem. Nua, perante aquele que a souber ler para além dos poros e dos sinais dos tempos e no seu corpo, encontrar os traços da eternidade feita luz... E eu, hoje, estou nua sob esse olhar, como sempre estive, sem o saber.

É apenas mais um entardecer que agoniza perante os nossos olhos já cansados das palavras. Este silêncio de águas escavando os leitos da ironia. Esta luz do crepúsculo que te traz cavalgando no meu desejo de incomensurável azul: o céu transformado em nuvens, no algodão dos sonhos, desfiadas, dispersas, embebidas em fragmentos da nossa memória.
Frases, sintaxes, vogais inertes que a eternidade dos risos fixou no eco das planuras. Talvez tudo não passe de um mero exercício de estilos, e nenhuma ave se faça ouvir nos nossos silêncios, a não ser, a águia-real dos teus olhos argutos sobre a minha carne nua.
Talvez apenas te alimentes das vísceras destas estrofes sem rima, nem métrica, mas onde se encontram ainda os teus restos, os sabores das nossas manhãs, os cheiros das oferendas de mel e frutos secos, as cores como fragmentos de um infinito pessoal que suspendemos, quando o medo veio espantar as manhãs claras e fazer mais frias as noites do nosso quarto.
Sim, é certo, as paredes escorrem a humidade e o bafio da tua ausência, mas nelas escrevi o anagrama do desejo, o único possível quando te leio e quero mais e mais de ti... Quando as palavras adquirem a acutilância de espadas e é o silêncio, que se vem plantar mesmo ao pé da nossa árvore. Lembras-te? A árvore onde as primeiras palavras brotaram dos teus olhos e a tua sintaxe se plantou no meu seio?
Lembras o cisne que paira na memória e ainda hoje canta para nós sem morrer depois? O cisne da discórdia, imperando já nos sentidos, esta paixão insana que te quer meu sobre todas as coisas que o criador fez belas... Lembras-te quando me temias e depois me amavas em silêncio? Lembras? Aquele lugar só nosso, para onde me escapo quando o silêncio me esquarteja? Encontrei-te lá numa volta insuspeita do tempo. Não sei se me esperavas, ou se apenas te esperavas a ti. Mas estive lá e fui tua, docemente tua, sob os plátanos que albergaram o nosso amor...
E agora, meu amor, que diriam de nós, se soubessem a eternidade de cada pequena dobra do tempo, de cada letra, de cada metáfora plantada no deserto, de cada um dos sete segundos que levo a chegar até ti... Diriam que sou louca, porque esta sede não se mata de palavras, mas matará sim a novidade de cada manhã, se as palavras secarem...
Sei que as trepadeiras cobriram já o meu nome e o musgo se nutriu das palavras idas, mas os meus membros desfolhados, ainda ondeiam na dança inquietante de ti em feitiços e marés aluaradas. Estou nua sim, sob as carícias do vento, essa brisa aromatizada de rosas e de beijos, que é pulsão, que é prazer, que é o sinal orgásmico das tuas mãos suspensas de mim... E ainda não sei se esses doces gestos me chegaram trazidos por um qualquer vento distraído que ocasionalmente soprou nos meus sentidos...

A voz é o remoinho da alma.


Noites despenhadas
no silêncio
em que renasce enfim
o som de ti
e nela vibram espadas sem gume
algodão de nuvens,
rios de espuma.

Noites em que a tua voz me murmura
correntes intermináveis de cascatas
que são sussurro e suspiro
e suavidade íntima
dessa intensa tonalidade
só tua.

A voz é o remoinho da alma.

Leva-me assim
confluindo na tua
e em segredo conta-me
onde as suas modulações,
onde esse timbre
tão suave como
canto de sereia aos meus ouvidos.

A tua voz é cristal puro que
no meu ser se parte.
Ah, não. Sem a tua voz
não poderia amar-te!

À noite

À noite
solto os cabelos
retiro a lua
do seu estendal
desfaço as estrelas
aquieto o mar
sopro um segredo
que quero guardar
as vagas rolam no areal
é o meu corpo enluarado
que se vestiu
para te esperar.

domingo, 21 de setembro de 2008

Eu sou o murmúrio










Eu sou o murmúrio que vem no vento
E vem pousar no poema arrefecido
Porque a memória é uma anta vazia
E o passado, um grito de ave sem sentido.

sábado, 20 de setembro de 2008

Hoje, Sou Penumbra...











Hoje, não sou cor, sou penumbra,
porque sombrios são os tempos
que aqui venho anunciar,
proclamando sentidamente,
a dispersão final do sonho,
que quebrou mas está lá,
como farol que se extinguiu,
mas que em noites de luar
ainda projecta a esguia sombra,
no prateado do mar...

Hoje, venho contar do vento
gemido louco e sibilante
que canta à minha janela
como pulsar insistente
das marés por confrontar.
Assobia e rodopia, e tolhe
de espanto o silêncio,
torre esguia sem sustento,
como voz enlouquecida
que não fala, não sussurra,
não é a voz clara de alguém,
mas apenas um lamento,
triste, incolor e pungente.

Hoje, não trago luzes
para iluminar o presente,
foscos estão os olhos de míopes
que acendem relampejos
falsos, de um brilho opaco,
rajadas frias de vento um clarão cego,
só estremecimento,
rasgando o algodão da noite.

Hoje, só venho anunciar
que um barco também navega
mesmo num mar sem farol
e, levado pelo temporal
salta a linha do horizonte
vogando para o país sem nome,
onde a sede de emoção
se faz poema e voa.

Hoje, venho anunciar que o sonho
ainda é ponte para a margem azul
da dor e que o dia, não é luz,
a noite, não é claridade e eu
não sou eu, mas uma sombra
sem contornos, um perfil na bruma
dos faróis, a luz que uma vaga maior,
por certo silenciou na mudança
das marés...

Pontes...










Pontes, são rumores de silêncio
Entre as duas margens de uma alma só,
Quando nos desnudamos à luz da lua
No seu zénite crescente
E nos cruzamos,
Com a sombra que o luar nos fez gigante.
Nesse canto da noite, descobrimos
Que não há lugares de exactidão geométrica
Como o lugar em que nos avistamos
Ponte de nós mesmos e barqueiros
Do nosso insuspeito destino.
Amamos, doamos o corpo em juramento
Fazemos da alma oferenda e afinal...
Somos os remos e a corrente,
O vento agreste e o mistral
E no fim do rio, à beira da cascata
Estamos apenas nós e, nada mais!

terça-feira, 13 de maio de 2008

No Meu Corpo


No meu corpo
Vivem as marcas de todas as guerras
Chagas de todas as dores
Feridas de todos os amores

No meu corpo
Vivem as cicatrizes de todos os lamentos
Gritos de dor... momentos
São valas de verga, carne viva

Neste corpo, o meu
Lêem-se todas as batalhas
Escritas a ferro
Desenhadas à mão

E tu amor
Quando um dia me desnudares
Lerás toda uma história
Massacre, martírio dormente

E neste corpo que me deram
Vivo aprisionada
Serei sempre alma
Viva noutro lugar

E nestas marcas fundas da vida
Nas veias, carne ferida
Vou continuar
Sentindo tormentos

E quando um dia meu amor
Olhares o meu corpo
Na pele encontrarás desgosto
Na carne, chaga viva

E se mesmo assim me quiseres
Então amor, oferece-me o teu corpo
Para que a minha alma se encontre
E recupere da vida

Tenho marcas de batalhas sem fim
Mas a guerra, essa, será sempre minha

domingo, 11 de maio de 2008

Lágrima que já não cai


Tristeza

Que me invade os sentidos

A solidão é um convite

À morte dos dias


Lágrima que já não cai

Olhar dormente vazio

Nas últimas horas dos dias


Sofrimento

Que já não tenho nem sinto


Tu... ilusão, condeno

Feitiço quebrado

Aurora negra


És meu sangue parado

Morto, vidrado


Vazio

Tudo deixou de ser

De estar, de existir


Resta-me o vazio

Do meu olhar parado

Cálido, num corpo sem vida


Sentir

Qual sentir?

Se já não sinto quem sou

Nem sinto quem és, o que és

Ao que vens


Em mim nada habita

Nada floresce

Geada de pedra cresce

Erva daninha


São meus braços troncos

Estéreis, frios

Onde tudo finda


Fecundo é o mar que lava a alma

Na noite negra do meu baptismo

Rosa-dos-ventos

Perdida seara...

O fogo purifica os corpos

O mar os olhos...


Tristeza

É amar sem ser amado

É nunca ter sabido amar

É estar só e não saber ser gente


Tristeza

É ser tudo e não ter nada

É ver quem passa

Não tendo para onde ir também


Tristeza ... ah tristeza

É ter um sentimento que já não tenho

É saber-se nu sem ter o que vestir

É saber-se amado e não amar


És triste tu

Que só, continuas tua vida

Condenando a minha

Forma estranha de viver


Sábias palavras

Só é triste quem quer ser


Eu invento-me e renasço

Num mergulho profundo

No centro da terra

Pelo mar subo

Ao fim de mim


E quando julgares que é esse o meu fim

Estarei olhando quem passa

Rindo miséria e chorando alegria

Pois eu serei sempre assim.

Mentiras


Mentiras são punhais

Cravados... reais

Na luz do dia… frontais

Na noite…escondidos

Nas sombras fatais


Partiste e como lembrança

Deixaste palavras malditas

Incertezas mortais


No rastro frases vendidas

Gestos...

Olhos mansos nos meus

Suavidade nas mãos

Sorriso... esse sorriso


Nada sei

Nada tenho

Mentiras!


Chamei tantas vezes o teu nome

No amor... na loucura... no calor

Será esse o teu nome?

Chamar-te-ia realmente?


Quem és tu que habitavas os meus sonhos?

Tu que sorridente invadias o meu espaço?

Que no meu corpo ganhaste guarida?

Nada sei de ti


Dizias tanto e tão pouco

Em gestos loucos

Somente o que contavas

Nas meias palavras de ti


Tecias vendavais no meu corpo

E dizias palavras tantas

E que sentido tinham

Na aurora do dia?


As noites foram promessas

Juras... ternuras

Aninhado no meu corpo

Julguei saber-te em mim


Mentiras, mentiras, mentiras

Que arrancaram aos poucos

Pedaços de mim


E subitamente vejo-me assim

Tiraste-me o chão...alteraste o norte

Sem raízes...nem caminhos

Morri aqui


Quem és tu?

Quem sou eu?

Quem fomos nós?

A Minha Dança


Olho-te nos olhos

Ajeito a saia... longa... caída... solta

Dou um passo e paro

Olho-te...


Um pé desenha meio círculo no chão

Uma mão brinca com a saia

A outra na cintura

Olho-te... desafio


Viro-te as costas

Num rodopio

Acalmo a saia

Dou mais um passo e paro


Com as mãos acima da cabeça

Palmas... cada vez mais palmas

Começa o ritmo

Outras palmas se juntam

Corpo que se solta

Primeiro mansamente

Aos poucos

Membro por membro

Espaço no espaço

Tontura

ViravoltaParo!


Olho-te... sorriso... desafio

E a perna faz um círculo

Desenha território

É meu

O espaço… a terra...

Mãos e gestos devassos

Palmas… sempre palmas

Ao som da guitarra

Dos próprios passos


A saia acompanha o deambular das pernas

O corpo contorce-se

Cintura arqueada

Movimento

Som frenético

Olhar hipnótico


Palmas… guitarras

Gestos largos… compassos

Mãos que desenham universos

Gentes que se aproximam

Circulo fechado

Quente


Olho-te... desafio

Viro-te a cara


Cabelos soltos ganham vida

Saia vermelha sobe e desce...rodopia

Palmas... alimento

Cresce... vivo... quente… febril

Ritmo

Calor em movimento

Chamas vivas


Tudo é vermelho

O som...o ambiente

A saia...sangue quente

Fogo...fervilha


Dou-te as costas

Frenesim de passos

Guitarrada

Voltas e reviravoltas

Paro!


Ajeito a saia

Corpo que reluz

Molhado...

Mão na cintura

Por cima do ombro

Olho-te de lado

Desafio

Vens?


Descalça ou de salto

Flamenga ou cigana

Esta será sempre

A minha dança

Hoje, vivo apenas.


Entre a fuga das palavras e a debandada dos sentidos, o corpo, só, entregue a si mesmo, caminha desordenadamente sobre os trilhos da vida. O segredo, envolto na alma, os sonhos, enrolados em seda, carrego comigo as minhas heranças, dentro do peito, e vagueio na deriva dos tempos, não procurando encontrar-me. Os meus dedos, esquecidos das palavras, os meus olhos, fechados, negam-se a ler, a pele, adormecida, já não sente, os ouvidos, surdos, não deixam entrar a música que desperta as palavras. Neste espaço, neste lapso, entre um instante e o próximo, respiro, suavemente, adormecendo o corpo, num sono vazio de sonhos, numa estória sem palavras, numa música em silêncio. Não espero por ninguém, não sonho com nada, não vou a lado nenhum, completo apenas o ciclo da vida, dia, noite, acordar, adormecer, andar, parar. Alimento o corpo, com energias que não saboreio, apenas para o manter funcional, é preciso cumprir o destino, é preciso seguir o caminho, até encontrar o princípio.

Hoje, vivo apenas.

A Poesia de Um Momento!...


Na nudez da pele, carregando o erotismo de um corpo semi-despido, sinto-te chegar bem perto de mim, como o som de um poema, ecoando no espaço vazio. Vens, caminhando lentamente, ao ritmo de um bolero de Ravel, em movimentos de prazer. Eu, aqui sentada sobre a cama, na placidez dum momento, travo o tempo. Estendo-te o meu olhar, como uma passadeira vermelha, que te conduz a mim, nesta caminhada de luxúria, lascívia, que se funde com a ternura e a suavidade dum olhar que carregas em ti. Este prelúdio, em que ambos nos deliciamos com os olhares, prolongando a espera, evaporando o ar que nos rodeia, inflamando cada milímetro da nossa libido, deixando os desejos à solta pelo espaço que medeia entre os corpos. Esta louca, e simultaneamente doce espera, relembra-nos de nos esquecermos do tempo, e eterniza nos olhares que se cruzam, o amor que partilhamos entre as nossas almas. Este poema inacabado, em que nos tornámos, é apenas um rio, que nasce aqui, e enche o oceano inteiro, num fôlego de prazeres, desejos e sonhos, perdidos em nós, bem no fundo das almas, apenas traduzido pelas letras dos textos que te escrevo.

terça-feira, 8 de abril de 2008

No Tempo de Uma Vida...



Vieste, abriste-me uma janela na alma, invadiste os meus pensamentos, ocupaste, o vazio deixado em mim. Sentaste-te na minha cadeira, recostaste-te e ficaste ali, falando de magia, mostrando-me o sincronismo do universo. Irradiaste a luz de um final de verão, falaste-me do sol, da sua energia, iluminaste o espaço escuro e vazio, desta floresta de sombras, onde me sento, para contemplar a minha solidão. De repente, a natureza envolvente, coberta de luzes vazias de calor, renasceu, floresceu, com os raios de luz que nos oferecias. A energia que te envolvia, ofuscou os meus olhos e de repente acreditei, acreditei ter encontrado a paz, o fim da história, acreditei ser a última mulher, acreditei ter terminado a missão. Mas, a tua chegada foi tão inesperada, como a tua partida. Foste a abertura que deixa passar os raios de sol por entre as nuvens da tormenta. Foste a brisa fresca, numa tarde quente de verão. No tempo de uma vida, a tua presença não passou de um prelúdio, de um instante, entre o inspirar e o expirar, entre um segundo e o próximo. Os bons momentos de magia, são aqueles que conseguimos executar tão rápido, que quem nos observa, não vê nada, apenas aquilo que queremos que veja. Afinal não somos magos, não existem fadas, e os alquimistas apenas vivem nas páginas dos livros, ou nas letras das canções. O silêncio voltou, as sombras agudizaram-se, a cadeira está vazia, mas os meus olhos ainda não se adaptaram à escuridão do local, nesta floresta, fria e silenciosa, onde venho sentar-me, e esperar...

O Último Suspiro de Sol...



Penso em ti, sigo pela estrada, sem olhar o caminho, a minha mente está longe, como o sol que teima em cair sobre as colinas à minha frente. Nunca te convidei para vires ver o pôr-do-sol comigo. Em tanto tempo que partilhamos juntos, nunca saboreamos este instante, a despedida do dia, talvez por temermos as despedidas, ou simplesmente porque sempre nos pareceu termos tempo para o fazer um outro dia qualquer. Pensámos, erradamente, que o pôr-do-sol é igual todos os dias, e não o é! Subo a colina, a derradeira despedida está perante os meus olhos, invade toda a planície. Sento-me e contemplo. O sol, agonizante, de laranja vestido, afaga-me a pele com a suavidade do calor da tua pele. O horizonte reparte-se entre o negro, o vermelho diabólico e o azul celeste. Tento afastar-te do meu pensamento, mas insistes em voltar. Sentas-te a meu lado como se sempre estivesses aqui, sinto a tua cabeça pender sobre o meu ombro e fico ali, vendo os raios de luz transformar as cores a cada instante, mudando a paisagem, fazendo as sombras agigantar-se por detrás de nós. O último suspiro de sol, desvanecesse por detrás do horizonte e subitamente o céu ganha um novo brilho, como se o dia estivesse de novo a querer nascer, como se tivesse sentido a minha saudade e quisesse voltar. Não, é apenas um momento, o momento em que de facto te sinto ali, comigo, esperando a noite chegar, deixando o dia partir. Juntos vimos a primeira "estrela" acender-se no firmamento, a "estrela da tarde", Vénus, o planeta do amor, brilha, como um anel de diamantes no azul que aos pouco se vai tornando escuro. Fecho os olhos, inspiro profundamente e recosto-me sobre a colina, esperando que um dia possas, realmente, partilhar a beleza mágica que é a despedida do dia, ou quem sabe, o nascimento, de uma noite de sonho.

Nasceu mais uma estrela no firmamento.



Sensações de profundo prazer, desejos inflamados, sentidos ao rubro. A minha pele arde ao tocar a tua, os meus dedos, como gotas de água, refrescam o teu corpo, a cada toque, a cada beijo. Evaporam-se os pensamentos, apelamos aos céus o silêncio que as bocas já não conseguem calar. A minha língua percorre-te o corpo, da nuca aos pés, por trilhos perdidos, por planícies húmidas de prazer. Sinto os sulcos da tua pele, que se arrepia ao passar da brisa da minha respiração. O meu corpo, incandescente, prolonga o momento, em carícias perdidas, adocicando-o com palavras de amor. À nossa volta, o vazio instalou-se, o silêncio cobre a noite com um manto de estrelas. Entre os corpos entrelaçados, o tempo acabou, o mundo acabou, a vida terminou, entre nós, não existe nada mais, só tu, só eu, nós. Neste momento, em que me invades, com a suavidade de uma pluma, os teus olhos irradiam a luz do sol e os meus, absorvem o brilho das estrelas. Um suspiro profundo, simultâneo e belo, escapa-nos por entre os lábios colados. Esta noite será infinita, não acabará mais, a eternidade toca-nos e vemos a beleza de um amor contido, que agora, se liberta num espasmo, com uma explosão de energia que brilhará para sempre no universo. Nasceu mais uma estrela no firmamento.

Lezíria em Flor





Minha alma é soneto ébrio d’amor,



É farta de rubor,roseira em alvoroço,


Agora que o meu corpo é brando e moço,


Agora que toda eu sou leziria em flor...





Os meus olhos são esmeraldas afogadas,


Debaixo de finas rendas de Ametista...


De onde minha alma de mulher avista


Turris Ebúrnea das paixões imaculadas...





Há rendas de prazer no nosso leito,


Como se de brocados o nosso amor fosse feito.


Ama-me estonteadamente...põe-me louca!!





Flamejam ao longe velas e mastros:


Beijos teus, subindo ao alto como astros,


Ao rubro poente da minha boca!!...

Busco Os Teus Sinais...



Busco teus sinais

e exorcizo o tempo.


As entranhas das palavras

soltam o grito

e a noite com seu manto

cala teu nome

que soletro...


Eu sei que o galo canta

outro ritmo(que dizem diurno)

– apenas riscos coloridos

num céu estranho!


A alvorada de ti não lhe pertence

nem decifra as cores

em que te pinto

nem a mágica poção

nem o cáliceque bebemos...


Por isso

deixarei que tempo vadio

te traga de regresso

(que em meu remorso expio)

recolhendo tuas veste

se nua

beber-te na hora certa!

domingo, 9 de março de 2008

Renascida!...


Desperto, afogada neste lago de águas plácidas. Abro o meu olhar ao mundo que me envolve nesta emulsão aquosa, gélida e incolor. Liberto-me, das amarras que me prendem, acordo da letargia que me trava os músculos deste corpo, que não é meu. Descubro o caminho de volta à superfície, deixo o corpo elevar-se. Sinto, a primeira lufada de ar da manhã invadir-me os pulmões, os meus olhos, molhados, adaptam-se à luminosidade do dia, que aos poucos dissipa o nevoeiro que o envolve. Descobri em mim, pedaços de tanta gente, que a minha alma se sente invadida pela multidão de almas que beberam deste lago que sou eu. Esta alma foi construída, sobre pedaços de outros que se cruzaram com ela, de encantos e paixões, de amores e desamores. Hoje sou, um bocado de ti, e de mim, sou feita de pedaços, retalhos de vidas perdidas, que o tempo tratou de colar e acabou por moldar, refazendo num todo, uma só peça, uma nova alma, feita de todos, vazia de alguém. Este deserto, em que se transformou o lago tranquilo, onde um dia mergulhou um anjo caído do céu, é agora, apenas pó, terra e nada. Um lugar inóspito, onde apenas uma alma perdida vagueia, à procura de um corpo que a acolha e a torne sua.Hoje, nesta água que me escorre sobre o peito, que me lava a poeira que o deserto foi acumulando sobre os meus ombros, sinto-me limpa, sinto-me leve.
Renascida!...

Desenho-te, sobre a tela branca da minha imaginação.



Desenho-te, sobre a tela branca da minha imaginação. Contornos de um corpo, que sinto com a ponta dos dedos. Vejo-te a cada instante, como se estivesses aqui. Abraço-te, e sinto o teu corpo, colado ao meu. O teu corpo incandescente aquece o meu, gelado, derretendo-me os sentidos. Num instante, a escuridão da noite ganha luz própria e sinto-te sobre o meu corpo. Falas-me ao ouvido, enquanto eu percorro com a palma das minhas mãos a tua pele. Beijas-me e sinto na minha face um arranhar suave de uma barba a despontar.Hoje, nesta noite fria, o gelo é queimado pelo desejo de nos amarmos. Os corpos, desejam-se e as almas abraçam-se, as nossas bocas colam-se em pequenos beijos, em doces trocas de línguas. As roupas que ainda nos cobrem, vão aos poucos sendo tiradas e sinto-te chegar. Entras em mim e o meu corpo estremece quando te recebe, lentamente, deixo-me escorregar por ti. As minhas mãos cravam-se com força sobre as tuas costas, a tua boca chama-me, e eu respondo-lhe com a ondulação suave do meu corpo, procurando-te o prazer, que também sentes.O êxtase final aproxima-se, quando os corpos, colados, molhados, sentem os músculos sobre tensão, quando as almas se libertam dos corpos, por um breve instante e se vão aninhar nos braços do ser amado. Beijo os teus lábios docemente, a tua saliva em erupção é alimento que devoro. A tua língua, que se adentra em mim, oferece-me os segredos nunca revelados, que apenas tu conheces. O meu corpo, perdido sob o teu, em espasmos de prazer, sente-se inundado pela seiva quente que me entregas, como se de um alimento se tratasse.Sinto o peso do teu corpo, subitamente sobre o meu, como se tivesses acabado de cair do céu, como se um anjo, se tivesse precipitado sobre mim.
Nesse instante, a tela fica pronta!

sábado, 8 de março de 2008

8 de Março - Dia Internacional da Mulher


Hoje,
não quero ser
a mulher forte,
com atitude de leoa,
sedutora,
aquela que luta, defende,
conquista,
consola, abriga...
Hoje,
eu quero deixar
que a mulher sensível,
delicada, romântica, frágil...
seja vista e sentida!
Quero um carinho, um abraço,
um colo...
Quero braços que me envolvam
protejam, abriguem.
Quero um corpo
onde me possa aconchegar;
um ombro para poder chorar,
uma mão que acaricie
os meus cabelos,
olhos que vejam as lágrimas
caierem pelo meu rosto
quando falo dos meus medos ...
uma boca que me diga palavras
de ânimo e esperança
e que me beijem com amor e carinho!
Quero olhos que vejam a minha fragilidade,
que me admirem por ser delicada
e que não desejem que eu
seja forte o tempo todo!
Quero ser admirada, notada,
e quero que me queiram também
por ter um lado frágil.
Quero que me admirem
por ser mulher na sua essência,
não só, o lado leoa,
como também o lado beija-flor e também flor!
O lado que necessita do outro
e que também precisa receber!
Quero hoje... a fragilidade de ser
MULHER!!!
(Dedico este texto, a todas as mulheres, mas em especial, à minha mãe,
que sempre soube ser, em todas as circunstâncias, uma grande mulher.)
Obrigada mãe, por me teres dado o exemplo!

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Refúgio & Prisão



Escondo-me, por detrás desta pele que me veste, que me aquece e protege. Lá fora, a chuva cai, molhando o corpo, frio, frágil e sem forças. Aqui dentro, onde me abrigo, na calma deste refúgio, vivo o tempo numa forma diferente. Esta estrutura que me abriga, vai aos poucos transformando-se, envelhecendo, perdendo capacidades, morrendo aos pedaços, enquanto se movimenta pelas estradas da vida. Mas cá dentro, no seu âmago, reside um ser completamente etéreo, delicado e doce, que, olhando o mundo através do seu hospedeiro, olha muito para lá do que os olhos conseguem vislumbrar, sente muito para lá do que os próprios sentidos podem transmitir. O tempo, inimigo letal da carcaça que o abriga, nada lhe diz, porque para mim, o tempo, não tem qualquer tempo, não existe. Lá fora, a fantasia da minha alma, luta diariamente pela sobrevivência, protege-se e ataca, contempla e sente, acorda e adormece. Aqui, onde me escondo, neste silêncio tranquilo, neste conforto suave, vejo passar outros corpos, sinto outras almas, aprendo-lhes os sentidos e absorvo-lhes a intimidade. Descubro em todas elas, pedaços de mim, mas, apenas em algumas me descubro.Foi assim que te encontrei, um dia, quando te cruzaste com este corpo em que habito, vi, no teu olhar, a outra parte de mim, fechada, num corpo proibido, num lugar tão próximo fisicamente, mas, tão distante na eternidade. Nesse teu olhar, descobri um dia, um grande pedaço de mim. Descobri-me num todo, completo. E de repente, este corpo que me refugiou, passou a aprisionar-me, não me deixando libertar para ir ao teu encontro. Hoje, nada sou, sou apenas mais um pedaço de mim, perdida num corpo qualquer...