domingo, 22 de julho de 2007

Soltar Amarras


Certa, de ter feito a melhor escolha, jamais estaria mas, fosse como fosse, a grande decisão estava tomada e de caixote em caixote, de memória em memória, sabia que tudo decorreria com normalidade, até chegar ao fim premeditadamente anunciado. Afinal, não fora este, o caminho que traçara, de forma a tornar perfeitamente plausível e irrefutável a ânsia de mudança que desde há muito borbulhava na enorme pasmaceira de que vinha sendo feita, a minha vida? Sair de casa, mudar de rumo! Espraiar-me por outras paragens, mais excitantes, menos previsíveis, onde quiçá, pudesse almejar um amanhecer diferente e sentir-me novamente viva, vibrante e feliz!
Sim, porque ao sair de casa, necessariamente, teria de reequacionar as – grandes e velhas – questões da vida! E esse haveria de ser o meu álibi mais – que – perfeito! Melhor ainda, seria o meu trapézio! O trapézio que me faria voar mais alto e me levaria mais longe, para além do horizonte longínquo, mas certamente possível, das minhas aspirações mais profundas. Pelo menos, assim o pensava e inconscientemente, disso me fui convencendo…
Virar a mesa, para mudar de página, nunca foi o meu forte, por isso durante anos, fui arranjando elaborados pretextos para conviver saudavelmente com o mau estar e o desencanto dos dias e das horas que, dolentemente, iam passando, numa cadência monótona e sempre igual, num terno e quase eterno, “laissez faire, laissez passer”, apenas acalentado pela ingénua esperança de que um dia, por artes mágicas, algo suficientemente forte e poderoso, pudesse fazer despoletar, sob a colorida forma de um arco íris, o mais cinematográfico e espectacular “volt-face” da própria vida, a que algum dia se pudesse assistir.

Por intermináveis meses, mantive-me fiel ao meu propósito, secreta e pacientemente ocupada, a tecer, fio após fio na doce e leve cambraia dos meus desejos, a mais discreta e airosa saída para, mansa e definitivamente, resolver todos os desencontros que, por incapacidade nossa, se foram tristemente amontoando e minando aquela relação, que tantos aplaudiram e apelidaram como a relação mais perfeita e duradoura que conheciam mas que, com o passar dos anos e o desgaste provocado pelas agruras de uma vida entediante, de perfeita apenas mantinha o conforto do nome e das aparências.

Confusa, questionando sobre a razoabilidade da escolha que iria fazer e até da minha própria lucidez e sanidade mental, decidi-me!

Por entre partículas de pó que se iam soltando e pilhas de caixotes espalhados pelo chão da que tinha sido a nossa sala, procurei acomodar recordações próximas e distantes da nossa vida comum – tão plena de boas intenções como de desencontros partilhados no mais absoluto e atroz dos silêncios – interroguei-me, uma e outra vez, sobre o significado de cada sentimento e emoção e sobre o verdadeiro rumo que a minha vida a partir daí, iria tomar…

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Retrospectiva de vida

Há dias, como hoje, em que me vejo a fazer a retrospectiva da minha vida.

Tenho 45 anos, quase meio século, mas olho para mim e não me vejo assim, não sinto o peso dos anos.

Tantos momentos. Tantas recordações. Uma vida preenchida, com muitas alegrias e algumas tristezas, mas sobretudo, bem vivida.

Olho para trás, e vejo-me criança, em Angola. Que bom foi aquele tempo, que grandeza de alma me deu aquele país. Foi um privilégio ter contacto com aquela terra que ficará sempre no meu coração e no meu ideal. África tem feitiço e tem magia! Só quem lá viveu, compreende este laço, umbilical, que nos une a ela...
Depois, foi o corte violento, a separação dolorosa. Tal qual como um bebé que nasce e o separam da mãe, cortando o cordão que até ali os uniu.

Tinha 13 anos e entrava na fase da adolescência. Julgo que a experiência anterior me fez crescer rapidamente, não tive tempo de sentir a tão falada "crise da adolescência", sabia que de um momento para outro, tudo se alterava e assim, procurei tirar partido, do que naquela altura me era oferecido, sem medos e sem crises. Tudo era novidade para mim, o país, o clima, as pessoas. A adaptação foi fácil, e uma nova aventura começou!

Vivi uma adolescência livre e descomplexada, nisso tive a ajuda preciosa dos meus pais, que mais do que pais, foram uns amigos. Sempre acreditaram e confiaram em mim, deixando-me viver sem restrições. Isso ensinou-me a ser responsável e a saber, que quando alguém confia em nós, temos de nos esforçar para a não defraudar.

Casei aos 19 anos, na perspectiva de hoje em dia, muito cedo, mas foi uma decisão pensada e desejada. Como desejado foi e muito, o bebé que dessa união nasceu, quando eu tinha 23 anos.
De novo, a minha vida deu uma reviravolta de 360º.

O sentimento de ser mãe é único, e impossível coloca-lo em palavras. Ele é um sentimento que cresce nas nossas entranhas, durante nove meses, junto com o feto e que explode, em autêntica apoteose, ao fim desse tempo. Indescritível!

Estive 17 anos casada, e desse período, guardo boas recordações. Foram anos que me trouxeram muita felicidade e que me proporcionaram a melhor experiência da minha vida, ser mãe. Terminou, é certo, mas não me deixou mágoa. Tudo na vida tem um fim, só temos é de saber aceitar quando ele chega, e procurar guardar na memória, o que de melhor existiu. E foram tantas coisas boas, tantos momentos inesquecíveis!

Mais uma vez, comecei uma nova fase da minha vida. Ela tem sido recheada de mudanças e que bom têm sido para mim. Se essas mudanças, não tivessem ocorrido, a minha vida continuaria sempre em linha recta, eu não teria tido a oportunidade de viver as sensações que vivi, nem de conhecer as pessoas que conheci. A minha vida tem sido feita de algumas lágrimas, mas muito mais de SORRISOS e isso faz de mim, uma pessoa FELIZ…

domingo, 15 de julho de 2007

Sedução


Alongo-me sobre ti. Demoradamente. Nos olhos, fulgurante e diabólico, o brilho da sedução por cumprir. Nos lábios rubros, entreabertos, mirabolantes promessas de beijos quentes. Os cabelos molhados, naturalmente desalinhados em premeditada liberdade, a açoitarem como voluptuosas ondas o teu peito nu a descoberto do meu prazer, a aninharem-te inteiro, em serenos sobressaltos…
Tu, a semicerrares os olhos num gozo, ainda, por consentir, a suspenderes a respiração quando, no fio da navalha, sinto que queres e foges de querer, a tensão que já se adivinha no ar.
Eu, indecentemente, a passear-me por ti, de alto a baixo, a confundir-me contigo, a deixar o rasto subtil do meu perfume tatuado na tua pele, a enroscar-me, a desenroscar-me, a colar-me com denunciado desvelo, a pôr achas na tua imensa fogueira, a atiçar-te o frenesim e a cobiça que só a custo dominas, a induzir delicias com o breve e quase inocente afago, do meu corpo a serpentear no teu.
A pele nua a roçar o gostoso desconforto do teu arrepio febril… E os meus seios, como dois frutos, estonteantemente, maduros a clamar pela avidez da tua fome, cada vez mais evidente…
A urgência plasmada nas tuas mãos, crispadas, a amassar raivosamente os lençóis por onde, voluptuosa, a loucura evolui em aflitivo crescendo…
Tu, tenso, em agonia, a quereres e a não quereres jogar mais – pró diabo, o jogo da sedução!
Tu, a um passo de cederes ao teu instinto de macho e me submeteres ao delírio caprichoso da tua vontade…
Não. Não quero que me toques!
Súbita e deliberadamente, afasto o meu corpo do teu, erguendo mais uma barreira ao teu suplício – quebro a estreiteza da tua proximidade, impondo os limites invisíveis de uma distância tácita mas segura.
Quero que me vejas e sintas todas as minhas pulsões mas não quero que me toques. Não, ainda! …
Sentada sobre as tuas pernas estendidas, de frente para ti, seguro tenazmente a força selvagem do teu desejo. Enleio-te as mãos nas minhas. Arrasto demoradamente o olhar hipnótico sobre o teu… Primeiro quero sentir a veemência com que me queres!
Deslizo, depois, lentamente o olhar sobre a tua boca. Detenho-me no perfeito delineado dos teus lábios. Esboço um sorriso ténue, prenúncio de atrevimento… Apetece-me a tremura desses lábios na maciez dos meus! Mordo o meu próprio desejo no desejo intenso de quebrar todas as regras…
E de repente, vejo-me enredada na minha própria teia, deixo de pensar – pró diabo, o jogo da sedução!...
Afinal, para cada regra existe, sempre, uma excepção!

Auto Retrato


Nos olhos, o verde, desafia a esperança
Na boca carmim, gorjeios de criança
E na aura, o mistério que a tudo resiste!

É tímido, o jeito, com que enfrenta e insiste
Mas corre-lhe nas veias, o ardor da mudança
Ilude quem pensa que, por pouco, se cansa
É Mulher – Guerreira! Não teme, ou desiste!

Libertina em sonhos, excessiva em emoção
Umas vezes, “iceberg”, outras tantas, paixão
Sensível aos afectos, porém, muito esquiva…

Do destino, não foge, mas é filha do vento
Amazona, a galope, na garupa do tempo
Alma peregrina, por esse mundo, á deriva…

Reencontro




Amanheces-me na pele
Em reflexos lúbricos de prata e de veludo…

Escorro inteira e lânguida como mel
Por teus desígnios!

Morro em cascatas de beijos
À fina-flor dos teus lábios…

Afundo-me na carícia velada do teu Ser
Em afrodisíacos aromas de incenso e magia!

Teus dedos, audazes, em meu corpo
Com maestria tântrica
Fazem desvelado percurso
Entre as avenidas e encruzilhadas do meu assombro…

Antecipam exemplares delícias!

Entrelaçam desejos escarlates
Com cristalinos gorjeios e afagos de alma…

Ruborizo os sentidos,
Num alucinante pulsar de paixões!

Amanheces-me vibrante no olhar
No improviso de sonhos belos e intemporais
E em ti, me idealizo tatuada,
Em doce aconchego,
Na morna e paciente invenção de futuros mais que perfeitos!

Somos o projecto semi – acabado de vidas que levámos a edificar…

O meu corpo só,
Santuário de emoções vivas
É por defeito
O corpo ausente desse amor,
O sangue estancado à pressa,
A fogueira mortiça,
A metade incompleta
Do rubro e doce fruto
Ainda por trincar, no jardim do Éden…

Esvaiu-se a noite de todas as noites de insularidade
Perpetuadas até hoje!

Na vanguarda do tempo, o amor é já uma clareira
Uma charneca em flor…
A ressurreição suprema da Ave moribunda
Entre as cinzas karmicas de muitas vidas paralelas…

Espero-te no sorriso perfeito da manhã
No voo rasante do condor,
No fogo aceso ao fundo…na indelével linha do horizonte!

Espero-te definitivamente,
À beira-mar,
Envolta em branca espuma sobre a areia tíbia de uma praia qualquer…
Para me dissolver em ti,
Para me reencontrar a mim,
Para, enfim, selarmos a eternidade
Num beijo profundo e indiviso!

domingo, 1 de julho de 2007

Quero-te


Quero-te, como se fosses a presa indiferente, a mais obscura das amantes. Quero o teu rosto de brancos cansaços, as tuas mãos que hesitam, cada uma das palavras que sem querer me deste. Quero que me lembres e esqueças, como eu te lembro e esqueço, num fundo a preto e branco, despida, como a neve matinal se despe, da noite fria e luminosa.