sábado, 23 de fevereiro de 2008

Refúgio & Prisão



Escondo-me, por detrás desta pele que me veste, que me aquece e protege. Lá fora, a chuva cai, molhando o corpo, frio, frágil e sem forças. Aqui dentro, onde me abrigo, na calma deste refúgio, vivo o tempo numa forma diferente. Esta estrutura que me abriga, vai aos poucos transformando-se, envelhecendo, perdendo capacidades, morrendo aos pedaços, enquanto se movimenta pelas estradas da vida. Mas cá dentro, no seu âmago, reside um ser completamente etéreo, delicado e doce, que, olhando o mundo através do seu hospedeiro, olha muito para lá do que os olhos conseguem vislumbrar, sente muito para lá do que os próprios sentidos podem transmitir. O tempo, inimigo letal da carcaça que o abriga, nada lhe diz, porque para mim, o tempo, não tem qualquer tempo, não existe. Lá fora, a fantasia da minha alma, luta diariamente pela sobrevivência, protege-se e ataca, contempla e sente, acorda e adormece. Aqui, onde me escondo, neste silêncio tranquilo, neste conforto suave, vejo passar outros corpos, sinto outras almas, aprendo-lhes os sentidos e absorvo-lhes a intimidade. Descubro em todas elas, pedaços de mim, mas, apenas em algumas me descubro.Foi assim que te encontrei, um dia, quando te cruzaste com este corpo em que habito, vi, no teu olhar, a outra parte de mim, fechada, num corpo proibido, num lugar tão próximo fisicamente, mas, tão distante na eternidade. Nesse teu olhar, descobri um dia, um grande pedaço de mim. Descobri-me num todo, completo. E de repente, este corpo que me refugiou, passou a aprisionar-me, não me deixando libertar para ir ao teu encontro. Hoje, nada sou, sou apenas mais um pedaço de mim, perdida num corpo qualquer...

2 Marquinha(s):

LÍRIO SELVAGEM disse...

Já somos duas...
Que m...... de vida!
E a chuva continua...
A molhar um corpo que não nos pertence, e esconde quem realmente somos...
Desculpa amiga...
Hoje estou assim, com as emoções à flor da pele!
Beijos no teu coração!

Anónimo disse...

Às vezes o corpo limita, condiciona a leveza do ser. Acredite porém que somos sempre e idealmente livres pelo espírito e que também a felicidade, gerada na alegria do coração e na ânsia da liberdade de nos sentirmos amados, entra tantas vezes em conflito com a razão ... O corpo não pode ser carcaça ou mero refúgio, é sim um meio que temos de cuidar para nos conduzir nesta vida na terra. O fim da existência não está contido nele; habita na beleza da alma e na justiça do coração.

Janício