domingo, 24 de junho de 2007

Proscrita


"Fala baixinho, para que a tua voz se dilua num rumor sem rosto. Temos para ti, a branca túnica das proscritas. Guardamos-te uma mancha escarlate ao centro da testa para avisar o mundo. Alinhámos-te por entre os cabides vazios das profanações sem nome. Consentimos o desfile e deixámos que sejas mais uma. E isso basta, não venhas pedinchar por mais. Cedemos-te o melhor da nossa hipócrisia mais delicada. É tua a nossa benevolência se te mantiveres na estrada de trás. Que mais reclamas tu?!... Deixamos para ti largas avenidas subterrâneas, onde podes pisar áquem do zelo e do cuidado. Mas não venhas galgar superfícies e avançar-nos os corredores. Pertences ao cortejo fantasma das Mulheres-Sombra, sem corpo e desalmadas, que banimos do centro do Grande Salão e não queremos sentadas à nossa mesa, navegando nos nossos mares, aportando à branca areia das nossas praias alvas. Trazes a perigosa ancora das palavras ditas em voz alta e uma bandeira demasiado garrida hasteada na proa. Trazes outras como tu: Mulheres-Corsárias a reclamar águas de ninguém e leis e vontades e lutas menos brandas, menos santas, menos cegas. Senhora das Ondas de maré teimosa, nós te tememos!... Perturbas-nos o longo sono dos surdos, desafias-nos o acordo dos séculos, a cada vez que palpitas o pulso contra a nossa mão pesada de pedra e castigos. Cresce a multidão que te aguarda no paredão do cais, Senhora! Cresce a multidão que afina na toada do teu hino mais livre, mais justo, mais sensato!... E nós não sabemos dessa outra ordem, Senhora! Não sabemos dessa outra nação que devagar se vai rasgando dentro do nosso país. Não sabemos, senhora!... Não sabíamos!... "

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