domingo, 24 de junho de 2007

Adeus


Às vezes tu dizias:

os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava,

Acreditava, porque ao teu lado,

todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos.

Era no tempo, em que o teu corpo era um aquário.

Era no tempo, em que os meus olhos,

eram os tais peixes verdes.

Hoje, são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade:

uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor...

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza,

de que todas as coisas estremeciam,

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar um ao outro.

Dentro de ti,

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus


(Eugénio de Andrade)

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