
Gosto de sentir o calor da terra no meu corpo! Apetece-me deixar que a terra me incorpore como sua, enquanto te espero no limbo de cada noite. Nestes tálamos nossos onde somos, meu amor, a origem e o fim de todas as nascentes.
Imagino-me raiz cravada no húmus, caule presumido de terra, tronco erecto saindo
do seu leito telúrico, para me abraçar na eternidade de te querer...
Corre mansamente, o ribeiro dos sentidos na volúpia da espera.
As minhas mãos são já folhas e os meus braços troncos, toda eu, telúrico desejo de esmorecer na brandura fértil dos teus braços.
Despertarei com a seda do teu toque, que me seguirá a curva do seio, até à concha do ventre, parando nesse lugar onde mora, o segredo de uma mulher.
No estio do sonho, na sua crina azul ao vento, estremeço, como superfície da água que uma pedra perturbasse.
São círculos concêntricos dos teus dedos em redor de um epigrama inventado pelos teus caprichos de amante.
Não paras de tocar o meu corpo com a doçura do violinista pelo seu velho violino. Tão alheado de mim, como se a minha pele te contasse histórias, que só tu lês.
Como um Braille inscrito no meu corpo que tacteias.
E eu, fundo-me com a Terra mãe e sou por ti arada, revolta, aberta, lavrada para a sementeira. Ah, meu amor, a suavidade única dos teus dedos. Esse arrepio, que me rasga os sentidos em mil bocados de papel suavemente incandescentes!
O meu corpo suspenso nas tuas mãos, depois na tua língua e então, as bocas procuram-se e selam o silêncio dos corpos...
Soergues-me para ti e cravas no meu sexo, a tua boca sequiosa, em murmúrios de sofreguidão e sede. De terra passo a Fogo, à medida que as tuas mãos me moldam para o teu gozo.
Na impiedade da tua boca, incandescências mil ocorrem no epicentro do meu corpo, enquanto o magma dos teus dedos se precipita na minha pele, rápido, voluptuoso,
com a voracidade e a urgência das madrugadas que perdemos.
Sou então a própria árvore da vida ardendo de braços erectos para o céu.
O fogo atinge a mancha breve dos cabelos, eu desprendo-me em murmúrios inconcludentes e procuro na tua pele a frescura que me salvará. Penetras-me com súbita urgência, ficando então ambos a planar abraçados, como se invisível tapete mágico nos levasse pelos ares em direcção aos quatro pontos cardeais: uma espiral por onde se escoa o próprio tempo. Somos agora a leveza do Ar rarefeito nos sentidos e caímos de cascatas de cor azul, onde o arco-íris se decompõe nas cores do nosso riso. Poucas pessoas riem, enquanto fazem amor. Mas tu ris. E fazes-me rir, com as coisas que me dizes. Somos o próprio tecto do mundo na leveza do riso. Então, em espasmos, em ondas, em vagas, em remoinhos, num diálogo de corpos e de sons, semeamos o ar com o harpejo das vozes subitamente enrouquecidas, vindas de um ponto distante do olhar. Tu suspiras, eu suspiro e somos de novo a Água primordial da vida, nos corpos exaustos, transpirados, aguados de doces fluidos.
Adormecemos terra nos braços da ternura. O sonho nos recolherá em seu cadinho de alquimista e de novo as duas gotas que sobraram da transmutação dos elementos se transformarão no perfume raro do desejo... O ciclo do amor uma e outra vez em nossos corpos se renova, noite após noite, enquanto a paixão nos elevar, a essa atracção elementar, que sempre uniu e unirá, um homem e uma mulher.
sábado, 2 de maio de 2009
O Ciclo do Amor
Postado por @--}--- de £ótus às 19:57
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