sábado, 2 de maio de 2009

Deste Lado Do Espelho



Deste lado do espelho vê-se o passar dos exércitos dispersos pela derrota. Entrincheirada nas minhas incertezas, assisto ao bailado dos dias e mistifico o que não entendo. Bebo este vinho entardecido numa garrafa que como eu não respirou. Entrecortadamente vêm-me à memória os dias em que o céu se rasgou para trazer a embriaguez das palavras. É como beber a incerteza e decantá-la linearmente para meu prazer. Aspiro o odor das palavras, capto-lhes o sabor, bebo-as de esperança e engano-me, ah, como me engano aqui deste lado do espelho!

Soam as badaladas de um relógio maluco que resolveu cantar avé-marias ao meu ouvido. Como se não fosse fácil acreditá-lo, quando me diz que a noite eterna se esqueceu de me esperar... Tal como o amor o tempo pode vir tarde, e não ser mais que este sonambulismo de carros urdindo nas cidades a teia do trânsito. Nesta casa só ficou o relógio, o espelho e as teias que me cobrem de pensamentos pegajosos. Nem sequer fiquei eu... Só a teia da sedução, o epicentro da teia onde a aranha nos promete amor, como à noiva de Dickens promete a vinda do noivo e apenas lhe cobre de mais teias o aparato nupcial...

Palavras que se nos pegam ao corpo, assomam ao olhar, devoram o desejo em desejo, cortam o luar em fatias de luz e um cigarro apagado cai dos lábrios cansados ferindo apenas a madrugada. Nestas noites brancas deambulo pelas cidades eternas, onde podia ter sido nomeda aquela-que-foi-feliz. Vou-me reconciliando com os prédios, com as estátuas e as pessoas. Ando suspensa de um fio de prumo que rasa o fio dos eléctricos a descer uma possível Rua da Graça ou de qualquer outra improvável qualidade. Mas não há na calçada som doutros passos a não ser os meus.

Lembro-me das telas que pintei à busca das palavras e ficaram penduradas na esperança de as encontrar. "Estes esboços patéticos foram feitos pela senhora que aqui morou. Não os quis. Desapareceu no ruído da cidade levando apenas o som dos seus passos sós na calçada. Partiu em demanda das palavras. Se as encontrar, voltará mais vazia mas não lhe digam nada. Todos os homens que encontrou tatuou-os de palavras e amou-os para além das palavras. Encontraram-na num beco esfaqueada de palavras, com uma palavra inerte a escorrer dos lábios frios. Do outro lado do espelho, ouço-lhe os gritos mas não a ouço. Desconfio que a sua loucura é um salmo bíblico injectado por palavras fora de prazo. Se a virem, não lhe liguem. Morreu seca de palavras sem nunca ter proferido a palavra hirta que lhe escorre dos lábios, sonhando que a cidade se abria à dimensão do seu sonho prodigioso, desvairada pelas fontes e lugares de culto, julgando que choveriam monções nos seus ombros destapados. Parou num farol à beira do nada. Era apenas um cais sem barcos. Aí se deixou ficar a sonhar com o seu mercador de palavras. Nada sente na sua loucura estilhaçada. Nem as pedradas dos meninos distraídos a alcançarão para lá dos vidros partidos das janelas sem vidros nem portadas - uma casa, apenas, uma casa abandonada por todas as palavras..."

Por que se quebraram estas lágrimas cansadas? E por que me olham daí em suspenso? O presente é a espiação das batalhas que me venceram, uma a uma, até ao dia em que me gravarem em mármore rosa o epitáfio da complacência. Nunca se deve olhar para um espelho numa casa vazia. Para lá dos estilhaçados dias, dos caixilhos quebrados, esmaecidos, feridos de palavras, existo eu, em todas as casas abandonadas, alguém que vos olha do outro lado do tempo sem sorrir... apenas eco de palavras.

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